O Cirurgião e a Mentira: Sangue nas Mãos do Poder

A voz de Tiago era como óleo a ser derramado sobre fogo.

"Ela está aqui, pai. A ouvir tudo," disse Pedro, com a voz tensa.

Houve um silêncio do outro lado da linha, seguido por um suspiro pesado e irritado de Tiago.

"Lia, eu sei que estás a sofrer. Perder uma mãe é terrível. Mas tomar decisões precipitadas com base na dor não é sensato. A nossa família está a passar por um momento difícil. O hospital está sob imensa pressão por causa do acidente da ponte. Eu estou a fazer o meu melhor."

"O seu melhor não foi suficiente," eu disse, a minha voz fria.

"O que é que estás a insinuar?" A voz de Tiago tornou-se cortante. "Estás a questionar a minha competência profissional? Depois de tudo o que fiz por ti e pela tua mãe?"

"O que é que o senhor fez por nós?" perguntei, a minha voz a subir. "Deu-lhe um quarto privado? Ou ignorou os meus telefonemas quando ela estava a morrer?"

"Insolente!" gritou Tiago. "Pedro, controla a tua mulher! Eu não vou tolerar este tipo de desrespeito!"

Pedro desligou a chamada, o seu rosto uma máscara de fúria.

"Estás satisfeita agora? Conseguiste irritar o meu pai! Ele já está sob stress suficiente!"

"E a minha mãe?" gritei de volta. "Ela não estava sob stress? Ela não estava com dor? Onde estava o teu pai quando ela precisava dele?"

"Ele estava a trabalhar! A salvar outras vidas!"

"Ele era o médico responsável por ela! A vida dela era a sua responsabilidade!"

O carro parou em frente à nossa casa. Saí e bati a porta com força. Pedro seguiu-me, agarrando o meu braço na entrada.

"Lia, para com isto. Vamos entrar, tomar um chá e conversar com calma."

"Não há nada para conversar," eu disse, puxando o meu braço. "Eu quero o divórcio, Pedro. É a minha decisão final."

A sua expressão mudou de raiva para uma espécie de súplica magoada.

"Lia, por favor. Não faças isto. Nós amamo-nos. Podemos superar isto juntos."

Eu olhei para ele. O homem com quem me casei, o homem que eu pensei que me amava. Mas naquele momento, tudo o que eu via era um estranho a defender a sua família, a qualquer custo.

"O amor não é suficiente, Pedro," eu disse, a minha voz finalmente a quebrar. "Não quando há uma vida perdida no meio."

Entrei em casa e fechei a porta na cara dele. Encostei-me à porta, a tremer.

O meu olhar caiu sobre o meu telemóvel. A mensagem do número desconhecido.

"Eu sei o que aconteceu à sua mãe. Não foi um acidente."

Com as mãos a tremer, respondi.

"Quem é você? Onde nos encontramos?"

A resposta foi quase imediata.

"Café Central, amanhã às 10h. Procure por uma mulher com um lenço vermelho."

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