O Aborto Planejado e a Vingança Inesperada

Quando abri os olhos, o cheiro de desinfetante encheu as minhas narinas, e a luz branca do teto do hospital feria a minha visão.

O meu corpo estava dorido, um vazio profundo e oco no meu abdómen.

A porta abriu-se com um rangido. O meu marido, Léo, entrou, o seu rosto bonito contorcido numa máscara de impaciência.

Ele atirou um saco de papel para a mesa de cabeceira.

"Comprei o pequeno-almoço. Come."

A sua voz era fria, sem qualquer vestígio de calor.

Olhei para o saco. Era da padaria do outro lado da rua. Ele nem sequer se deu ao trabalho de ir um pouco mais longe para comprar algo que eu gostasse.

"Onde estiveste ontem?" A minha voz saiu rouca, um sussurro fraco.

"Não me ligaste a dizer que ias fazer um aborto? Eu tinha uma reunião importante. O projeto do Norte da cidade é crucial para a empresa."

Uma reunião. Mais importante do que a sua esposa a passar por um procedimento médico sozinha.

"E depois da reunião?" insisti, sentindo uma frieza a espalhar-se do meu peito para fora.

"A Sofia ligou-me. Ela estava a ter um ataque de pânico. Tive de ir para casa dela. Sabes como ela fica. Ela precisa de mim."

Sofia. A sua ex-namorada, a sua amiga de infância, a mulher que ele nunca esqueceu completamente.

A mulher que, segundo ele, era "frágil" e "precisava de proteção".

"Então," eu disse, a minha voz a tremer ligeiramente, "deixaste-me aqui sozinha para ires consolar a tua ex-namorada."

Léo franziu o sobrolho, a sua irritação a aumentar.

"Inês, não sejas dramática. Foi apenas um procedimento menor. A Sofia estava genuinamente em perigo. Ela podia ter-se magoado."

Um procedimento menor. O fim da nossa gravidez, o fim do nosso bebé. Um procedimento menor.

"Vamos divorciar-nos, Léo."

As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse detê-las. Elas pairaram no ar estéril do quarto de hospital.

Léo olhou para mim, chocado por um momento, antes de o seu rosto se transformar em raiva.

"Divórcio? Estás a falar a sério? Por causa disto? Inês, estás a ser ridícula e egoísta. Eu estava a ajudar uma amiga necessitada. É isso que as pessoas decentes fazem!"

"E o que é que as pessoas decentes fazem pelas suas esposas, Léo?"

"Eu estou aqui agora, não estou? Trouxe-te o pequeno-almoço! O que mais queres? Que eu largue tudo sempre que tens um pequeno problema? O mundo não gira à tua volta!"

Ele não entendia. Ele nunca entenderia.

Para ele, eu era um problema. Sofia era uma prioridade.

O meu telemóvel tocou na mesa de cabeceira. Era a minha sogra, a mãe do Léo.

Antes que eu pudesse atender, Léo agarrou no telemóvel.

"Mãe," ele disse, o seu tom a mudar instantaneamente para o de um filho queixoso. "Sim, estou com a Inês. Ela está bem, mas está a ser difícil."

Ele fez uma pausa, a ouvir.

"Ela quer o divórcio. Sim, eu sei. Só porque eu fui ajudar a Sofia ontem à noite. Podes acreditar? Completamente irracional."

Senti o sangue a fugir do meu rosto.

Ele estava a virar a sua própria mãe contra mim, a pintar-me como a vilã louca e ciumenta.

"Eu sei, mãe. Eu também não sei o que fazer com ela. Ela está a tornar as coisas tão difíceis."

Ele desligou e atirou-me o telemóvel de volta.

"A minha mãe vai falar contigo mais tarde. Talvez ela consiga fazer-te ver a razão."

Com isso, ele virou-se e saiu, batendo a porta atrás de si.

Fiquei a olhar para a porta fechada, o vazio no meu útero a ecoar o vazio no meu coração.

O divórcio não era uma ameaça.

Era uma promessa.

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