O meu filho, Leo, morreu no dia do seu terceiro aniversário.
A culpa foi minha, eu não o protegi bem.
O meu marido, Pedro, estava ao telefone, a sua voz cheia de raiva.
"Inês, o que é que se passa contigo? Eu disse-te para não deixares o Leo perto da piscina! A piscina ainda não está vedada!"
"Onde é que tu estavas? Eu disse-te que precisava da tua ajuda hoje."
"A Sofia teve um ataque de pânico, eu tive que ir ter com ela. Ela quase desmaiou, sabes o quão frágil ela é."
A voz preocupada da minha sogra, a Dona Elvira, veio do outro lado da linha.
"Pedro, querido, como está a Sofia agora? O médico já a viu? Coitadinha, ela é tão sensível."
Depois, a voz dela tornou-se fria e cortante quando se dirigiu a mim.
"Inês, tu és a mãe. Como é que pudeste ser tão descuidada? Se não consegues cuidar de uma criança, para que é que a tiveste?"
Eu desliguei o telefone.
Não conseguia ouvir mais.
Olhei para a sala vazia, para o bolo de aniversário do Leo na mesa, com o seu super-herói preferido por cima.
As velas ainda não tinham sido acesas.
Ele nunca chegou a soprá-las.
Pedro chegou a casa tarde da noite, cheirava a perfume de mulher, o perfume da Sofia.
Ele não olhou para mim, foi direto para o quarto.
"Vamos divorciar-nos, Pedro."
A minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Ele parou à porta do quarto, virou-se lentamente, o rosto dele era uma máscara de incredulidade e fúria.
"Divórcio? Estás a usar a morte do nosso filho para me manipulares? Inês, és doente."
"Eu não estou a manipular ninguém. Eu não posso continuar nisto."
"Não podes? E a Sofia? Ela precisa de mim! A família dela fez tanto por nós, pela minha empresa. Tens alguma noção do sacrifício? Tu só pensas em ti!"
O sacrifício.
Sim, eu conhecia o sacrifício.
Casei com o Pedro há cinco anos, ele era apenas um gestor de projetos com um grande sonho.
A família da Sofia, a melhor amiga dele, investiu na sua empresa.
Desde então, a Sofia tornou-se uma presença constante nas nossas vidas.
Se o carro dela avariava, o Pedro ia buscá-la.
Se ela se sentia sozinha, o Pedro passava horas ao telefone com ela.
Se ela tinha um ataque de pânico, o Pedro largava tudo para correr para o lado dela.
E eu? Eu era a esposa compreensiva.
Até hoje.
Hoje, eu pedi-lhe para ficar em casa, para celebrar o aniversário do nosso filho.
Ele prometeu.
Mas a Sofia ligou, e ele foi-se embora.
Deixou-me sozinha para montar os brinquedos, decorar a casa e vigiar o nosso filho.
E eu falhei.
O telefone dele tocou. Era a Sofia.
Ele atendeu imediatamente, a sua voz mudou, tornou-se suave e tranquilizadora.
"Sofia? Sim, estou em casa. Não te preocupes, está tudo bem. Descansa, sim? Amanhã passo aí para te ver."
Ele desligou e olhou para mim, o desprezo nos seus olhos era evidente.
"Vês o que fizeste? Agora ela está preocupada comigo."
Eu não respondi.
Apenas olhei para a mão dele, para a aliança de casamento que parecia um adereço sem sentido.
O nosso filho estava morto.
E ele estava a consolar outra mulher.
A dor no meu peito era uma coisa física, pesada.
O amor que eu sentia por ele, que já estava a morrer lentamente, acabou de se transformar em cinzas.





