Não Se Mexa Com a Filha Que Perdeu Tudo

Naquela noite, a chuva caía sem parar, batendo com força nas janelas do hospital.

O meu pai, Lucas, tinha acabado de sair do quarto para fumar, deixando-me sozinha com o corpo frio da minha mãe.

O médico tinha acabado de declarar a hora da morte dela.

Eu estava sentada numa cadeira de plástico duro, com o corpo dormente, a olhar para o rosto pálido da minha mãe.

O meu noivo, Tiago, não estava aqui.

O meu telefone mostrava vinte e três chamadas não atendidas para ele.

Eu sabia onde ele estava.

Ele estava com a irmã dele, a Sofia, a cuidar do gato dela que estava doente.

"O Miau está com febre, não posso deixá-lo sozinho," foi a última coisa que ele me disse antes de desligar o telefone na minha cara, há três horas.

A minha mãe estava a morrer e o gato da irmã dele tinha febre.

A escolha dele foi clara.

Com as mãos a tremer, disquei o número dele mais uma vez.

Desta vez, ele atendeu, mas a sua voz estava cheia de irritação.

"O que foi agora, Joana? Já não te disse que estou ocupado? O Miau está a vomitar, a Sofia está em pânico, não tenho tempo para as tuas crises!"

Antes que eu pudesse responder, ouvi a voz chorosa da Sofia ao fundo.

"Tiago, o Miau não quer comer... Estou com tanto medo. Obrigada por estares aqui, és o melhor irmão do mundo."

Depois, a voz do meu pai, Lucas, soou, surpreendentemente calma e reconfortante.

"Não te preocupes, Sofia. O Tiago e eu vamos cuidar de tudo. Ele vai ficar bem."

O meu pai.

Ele também estava lá.

Ele deixou a minha mãe morrer sozinha no hospital para poder consolar a Sofia por causa de um gato doente.

Um riso seco e amargo escapou dos meus lábios.

"Tiago," disse eu, com a voz rouca e vazia. "A mãe morreu."

Houve um silêncio do outro lado da linha, que durou apenas um segundo.

"O quê? Como assim? O médico não disse que ela estava a estabilizar?"

"Ela teve uma paragem cardíaca. O médico tentou reanimá-la. Não resultou."

"Merda," ele murmurou. "Olha, eu... eu vou já para aí. Diz ao teu pai para..."

"O pai está aí contigo," interrompi-o, com a voz desprovida de qualquer emoção. "Ele está a ajudar a cuidar do gato."

O silêncio que se seguiu foi mais pesado. Consegui imaginá-lo a olhar para o meu pai, a culpa a surgir nos seus olhos.

"Joana, eu sei que isto parece mal..."

"Nós acabámos," disse eu, as palavras a saírem com uma finalidade fria. "Não há casamento. Não há nada."

"Não sejas ridícula!" A voz dele subiu de tom, cheia de raiva. "A tua mãe acabou de morrer, estás em choque! Não podes tomar uma decisão destas agora! Estás a ser egoísta!"

Egoísta?

Eu era a egoísta?

A minha mãe, a mulher que o tratou como um filho durante cinco anos, morreu sozinha enquanto ele segurava a pata de um gato.

"O nosso noivado está acabado, Tiago. Quando fores buscar as tuas coisas a minha casa, por favor, certifica-te de que eu não estou lá."

Desliguei antes que ele pudesse responder.

Imediatamente, bloqueei o número dele.

Depois, bloqueei o número do meu pai.

O meu mundo tinha-se reduzido àquele quarto de hospital estéril e ao silêncio ensurdecedor deixado pela ausência da minha mãe.

O gato da Sofia estava doente.

A minha mãe estava a morrer.

Para o Tiago e para o meu pai, a escolha foi fácil.

O amor deles era condicional, e eu e a minha mãe tínhamos falhado claramente as condições.

Eles escolheram o gato.

Enquanto eu estava ali sentada, a olhar para o nada, o telefone da minha mãe, que estava na mesa de cabeceira, começou a vibrar.

Era o meu pai a ligar.

O nome "Meu Amor Lucas" brilhava no ecrã.

Um impulso doentio apoderou-se de mim. Atendi a chamada e coloquei-a em alta-voz.

A voz zangada e confusa do meu pai encheu o quarto silencioso.

"Helena? O que se passa com a tua filha? Ela acabou de ligar ao Tiago a dizer asneiras e desligou! Ela não tem respeito nenhum? O que é que lhe andaste a ensinar? Será que ela não percebe que a Sofia está a passar por um momento difícil?"

A voz dele ecoou no quarto, passando pelo corpo sem vida da mulher a quem ele chamava "Meu Amor".

Ele nem sequer perguntou por ela.

Nem uma única vez.

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