Não Se Mexa Com a Filha Que Perdeu Tudo

Não respondi ao meu pai.

Apenas deixei o telefone em alta-voz, permitindo que o silêncio do quarto de hospital lhe respondesse.

Consegui ouvi-lo a respirar pesadamente do outro lado, a sua impaciência a crescer.

"Helena, estás a ouvir-me? Diz alguma coisa, caramba! A Joana está a agir como uma criança mimada, e tu não fazes nada!"

A voz dele era um ruído distante, sem sentido.

Olhei para o rosto sereno da minha mãe.

Pela primeira vez em anos, ela parecia em paz, livre da dor constante e da necessidade de agradar a um homem que nunca a valorizou verdadeiramente.

"Ela não pode responder-te, pai," disse eu finalmente, com a voz monótona.

Houve uma pausa.

"Joana? Porque é que estás com o telefone da tua mãe? Passa-lho!"

"Não posso."

"Porque não? O que se passa aí?" A irritação dele estava a transformar-se em alarme.

"A mãe morreu há vinte minutos."

O silêncio que se seguiu foi total.

Consegui ouvir um som abafado, como se algo tivesse caído. Talvez o telefone dele.

Depois, a voz da Sofia, trémula e assustada.

"Lucas? O que foi? Estás tão pálido."

Ninguém respondeu.

Apenas o som de respiração ofegante.

"Pai?" perguntei, uma faísca de curiosidade cruel a acender-se dentro de mim. "Estás aí?"

A chamada foi desligada abruptamente.

Senti um vazio estranho. Não era tristeza, nem raiva. Era apenas... nada.

Como se a parte de mim que se importava com ele tivesse morrido juntamente com a minha mãe.

O meu pai não me ligou de volta.

O Tiago não apareceu.

Fiquei sentada ao lado da minha mãe durante mais uma hora, até que as enfermeiras entraram para preparar o corpo dela para a morgue.

Elas foram gentis, falando em sussurros suaves, oferecendo-me um copo de água que eu recusei.

Quando saí do hospital, o ar da noite estava frio e húmido. A chuva tinha parado.

Caminhei para casa.

Não era longe, apenas vinte minutos a pé.

O apartamento que eu partilhava com o Tiago parecia estranho, como se pertencesse a outra pessoa.

As fotos dele e minhas nas paredes pareciam zombar de mim.

Fui diretamente para o nosso quarto e peguei num grande saco de lixo preto.

Comecei a esvaziar o lado dele do armário.

As camisas dele, as calças, os sapatos.

Tudo o que lhe pertencia foi para o saco.

Depois, a mesa de cabeceira dele.

Os livros, o carregador do telefone, uma caixa de preservativos.

Por último, a casa de banho.

A sua escova de dentes, a sua espuma de barbear, o seu perfume.

Enchi três sacos de lixo grandes com os vestígios da vida dele na minha casa.

Arrastei-os para a porta da frente e deixei-os no corredor, do lado de fora.

Depois, enviei-lhe uma mensagem de um número desconhecido, usando uma aplicação online.

"As tuas coisas estão à porta. A chave está debaixo do tapete. Não entres."

Fechei a porta e tranquei-a.

Pela primeira vez em muitas horas, senti algo.

Alívio.

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