Não Foi Um Acidente: O Despertar da Fúria

O médico entrou pouco depois de Pedro sair. O seu rosto era sério.

"Senhora Costa, tenho os resultados dos exames da sua irmã."

Sentei-me direita na cama, o meu coração a bater descontroladamente. "Ela está bem, certo? O Pedro disse que era apenas uma concussão."

O médico hesitou, o seu olhar era compassivo. "A concussão é a menor das nossas preocupações. A Sofia sofreu uma lesão grave na medula espinhal."

O ar foi-me arrancado dos pulmões. "O que... o que é que isso significa?"

"Significa que há uma grande probabilidade de ela não voltar a andar."

As palavras pairaram no ar, pesadas e impossíveis. Não. Não a Sofia. Ela era uma bailarina. A dança era a sua vida, a sua paixão, a sua alma.

"Não," sussurrei. "Tem de haver um engano. Façam os testes outra vez."

"Já fizemos," disse o médico gentilmente. "Sinto muito. A lesão é severa. Existe uma cirurgia experimental que pode oferecer alguma esperança, mas é arriscada e extremamente cara. Estamos a falar de cerca de 200.000 euros."

Duzentos mil euros. Era como se ele tivesse dito dois milhões. Eu era professora. A minha mãe era reformada. Vivíamos de salário em salário.

Senti o pânico a tomar conta de mim. A minha irmã, a minha vibrante e energética Sofia, presa a uma cadeira de rodas para o resto da vida. E era tudo culpa minha. Se eu não estivesse tão destroçada pelo Pedro, talvez estivesse mais atenta na estrada.

O médico deixou-me sozinha com os meus pensamentos. Peguei no telemóvel e disquei o número de Pedro. Tinha de o fazer. Pela Sofia.

Ele atendeu, a voz impaciente. "Clara, eu disse que estava ocupado."

"Pedro, preciso da tua ajuda," disse eu, engolindo o meu orgulho. "A Sofia... a lesão dela é grave. Ela pode nunca mais andar."

Houve uma pausa. "Isso é terrível. Mas o que é que eu posso fazer?"

"A cirurgia," a minha voz era um fio. "Custa 200.000 euros. Eu não tenho esse dinheiro. Por favor, Pedro. Podes emprestar-me? Eu pago-te de volta, juro. Cada cêntimo."

Ele riu. Uma risada fria e cruel.

"Duzentos mil? Estás louca? Porque é que eu te daria esse dinheiro? O nosso relacionamento acabou, lembras-te? Foi decisão tua."

"Mas isto é pela Sofia! Ela é como uma irmã para ti!"

"Ela não é minha irmã. E os meus recursos estão todos empatados agora. Estou a planear o meu casamento com a Beatriz, a comprar uma casa. Não tenho dinheiro para deitar fora com causas perdidas."

"Causas perdidas?" a minha voz tremeu de raiva. "Estás a chamar à minha irmã uma causa perdida?"

"Sejamos realistas, Clara. As hipóteses são pequenas. Seria um desperdício de dinheiro. Agora, se me dás licença, tenho de ir. A Beatriz e eu estamos a escolher os convites de casamento."

Ele desligou.

Fiquei a olhar para o telemóvel, o som do tom de desligado a ecoar nos meus ouvidos. Ódio, puro e intenso, percorreu-me as veias. Ele não só me tinha partido o coração, como também tinha acabado de sentenciar a minha irmã a uma vida sem movimento.

Naquele momento, eu fiz uma promessa a mim mesma. Eu ia arranjar aquele dinheiro. E ia fazer o Pedro pagar por tudo o que tinha feito.

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