Não Foi Um Acidente: O Despertar da Fúria

Quando acordei, o quarto do hospital estava silencioso, apenas com o som do monitor cardíaco a apitar ritmicamente. A minha cabeça latejava. A última coisa de que me lembro é do carro a capotar, do som de metal a rasgar e do grito da minha irmã, Sofia.

O meu telemóvel estava na mesa de cabeceira. Com a mão a tremer, peguei nele. Havia dezenas de chamadas não atendidas do meu marido, Pedro.

Ignorei-as e liguei para a minha mãe.

Ela atendeu ao primeiro toque, a voz cheia de pânico.

"Clara! Graças a Deus! Estás bem? Onde estás?"

"Estou no hospital, mãe. Eu e a Sofia tivemos um acidente."

Houve um silêncio do outro lado, depois um soluço contido. "A Sofia... a Sofia está..."

"Ela está bem," menti. "Só alguns arranhões. E eu também."

Não conseguia dizer-lhe a verdade. Não agora.

"Onde está o Pedro?" ela perguntou. "Ele não está contigo?"

"Não," disse eu, a voz vazia. "Ele está com a noiva dele."

Sim, a noiva dele. Não eu. A nossa cerimónia de casamento estava marcada para a próxima semana. Mas há três dias, recebi uma mensagem de um número desconhecido. Era uma fotografia do Pedro, a pôr um anel no dedo de outra mulher, a minha colega de trabalho, a Beatriz.

O texto dizia: "Ele nunca te amou. Ele só te usou para conseguir a promoção."

Confrontei o Pedro. Ele não negou. Apenas disse, com uma frieza que me gelou, "Beatriz pode ajudar-me mais na minha carreira. O pai dela é o vice-presidente. Tu não és nada."

O mundo desabou. A minha irmã Sofia insistiu em levar-me para longe da cidade por uns dias, para me ajudar a limpar a cabeça. Foi na viagem de regresso que o camião nos atingiu.

"Clara, o que queres dizer com 'noiva'?" a voz da minha mãe tremeu.

"Vamos falar sobre isso mais tarde, mãe. Preciso de desligar."

Desliguei antes que ela pudesse protestar. As lágrimas que eu estava a segurar começaram a rolar pelo meu rosto. Olhei para o teto branco, sentindo um vazio profundo. O homem com quem eu ia casar, o homem que eu amava, tinha-me destruído.

Nesse momento, a porta do quarto abriu-se. Era o Pedro.

Ele parecia preocupado, mas os seus olhos não conseguiam esconder a irritação.

"Clara, porque não atendeste as minhas chamadas? Fiquei louco de preocupação!"

Ri, um som amargo e oco. "Preocupado? Ou preocupado que eu pudesse arruinar os teus planos perfeitos?"

A sua expressão mudou. A falsa preocupação desapareceu, substituída por uma defesa fria.

"Do que estás a falar? Tivemos um acordo. Íamos terminar as coisas amigavelmente depois do casamento da minha irmã."

"Um acordo?" repeti, incrédula. "Tu chamas a isso um acordo? Tu traíste-me, Pedro. Mentiste-me."

"Eu não menti!" ele elevou a voz. "Eu ia contar-te! Só não era o momento certo! A Beatriz está a passar por um momento difícil, o pai dela está doente. Ela precisa de mim!"

"E eu?" a minha voz falhou. "Eu não preciso de ti? A minha irmã está numa cama de hospital por tua causa!"

"Não ponhas a culpa em mim pelo teu descuido na estrada!" ele retorquiu. "Além disso, a Sofia vai ficar bem. Os médicos disseram que é apenas uma concussão. A Beatriz, por outro lado, está emocionalmente frágil. Ela precisa do meu apoio."

Ele olhou para o relógio. "Tenho de ir. A Beatriz está à minha espera. Conversamos mais tarde, quando estiveres mais calma."

Ele virou-se para sair.

"Pedro," chamei, a minha voz subitamente firme.

Ele parou, mas não se virou.

"Está tudo acabado. Não há casamento. Não há 'nós'."

Ele encolheu os ombros. "Como queiras. Mas não venhas a correr para mim quando te arrependeres."

E com isso, ele saiu, fechando a porta atrás de si, deixando-me sozinha com o som do meu coração a partir-se.

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