Liberta das Chamas do Passado

O cheiro a queimado foi a primeira coisa que me acordou. Um fumo denso e cinzento enchia o nosso apartamento, picando os meus olhos e a minha garganta.

Levantei-me da cama, o pânico a instalar-se. A minha barriga de nove meses tornava cada movimento lento e desajeitado.

"Miguel?", chamei, mas a minha voz saiu rouca.

Ele não estava em casa. Tinha saído há uma hora para ajudar a sua amiga de infância, Sofia, a montar um armário novo.

O alarme de incêndio começou a soar, um barulho estridente que me fez estremecer. Corri, o mais rápido que pude, para a porta da frente. A maçaneta estava quente, a madeira à volta dela a estalar.

Estava presa.

Agarrei no meu telemóvel com as mãos a tremer e liguei para o Miguel. O meu único pensamento era ele. Ele saberia o que fazer.

A chamada demorou uma eternidade a ser atendida. O fumo ficava mais espesso a cada segundo.

Finalmente, a voz dele soou, irritada.

"Clara? O que foi? Estou mesmo no meio de uma coisa."

"Miguel, há um incêndio! No nosso prédio! Estou presa no apartamento!"

Houve uma pausa. Ao fundo, ouvi a voz de Sofia, a rir de alguma coisa.

"Já ligaste para os bombeiros?", perguntou ele, o seu tom casual.

"Sim, mas não sei quanto tempo vão demorar! A porta está bloqueada, há fumo por todo o lado! Por favor, vem para casa!"

"Calma, não sejas tão dramática", disse ele. "Os bombeiros são profissionais, eles resolvem isso. A Sofia está a ter um ataque de pânico por causa de uma aranha que encontrámos, não a posso deixar sozinha agora."

Uma aranha.

Ele estava a acalmar a Sofia por causa de uma aranha, enquanto a sua mulher grávida estava presa num incêndio.

"Miguel, por favor...", supliquei, a tosse a interromper-me.

"Olha, eu não posso fazer nada que os bombeiros não possam fazer melhor. Deixa de ser criança. Liga-me quando estiveres em segurança."

E desligou.

Olhei para o telemóvel na minha mão, incrédula. O som do fogo a consumir o prédio era agora um rugido.

Sentei-me no chão, encostada à parede mais fria que consegui encontrar, e abracei a minha barriga.

O meu bebé. O nosso bebé.

As lágrimas misturavam-se com o suor no meu rosto. Naquele momento, no meio do fumo e do medo, uma coisa tornou-se clara.

Estávamos sozinhas.

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