Ele Me Deixou Sem Nada, Eu o Deixei Sem Futuro

O cheiro de desinfetante no hospital era forte.

Meu corpo doía por todo o lado, uma dor surda e constante que vinha de dentro.

O médico tinha acabado de sair, as suas palavras ainda ecoavam na minha cabeça.

"Senhora Alves, o seu filho... não sobreviveu ao acidente."

"A perda de sangue foi demasiado severa."

Eu olhei para a minha barriga, agora coberta por um lençol branco e fino.

Estava vazia.

O meu filho, que eu carreguei por oito meses, tinha-se ido.

Tudo por causa de um acidente de carro.

Um acidente que aconteceu enquanto eu corria para o hospital porque a minha sogra, a mãe do meu marido, teve um ataque cardíaco súbito.

Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer.

Precisava de ligar ao meu marido, Leo.

Ele precisava de saber.

A chamada demorou a ser atendida. Quando ele finalmente atendeu, a sua voz estava cheia de irritação.

"Catarina? O que queres agora? Estou ocupado!"

"A mãe acabou de sair da cirurgia, o médico disse que ela precisa de descanso absoluto. Não me incomodes com coisas sem importância."

A voz de uma enfermeira soou ao fundo, suave e preocupada.

"Senhor, a sua mãe está a chamar por si. Ela parece agitada."

Depois ouvi a voz da minha cunhada, Sofia.

"Leo, vem rápido! A mãe está a perguntar por ti. Ela não quer mais ninguém."

Ele estava com a família dele.

A minha dor, a nossa perda, parecia não ter importância.

"Leo," a minha voz saiu como um sussurro rouco. "O nosso bebé..."

"O que tem o bebé?" ele cortou-me, impaciente. "Ele está bem, não está? Não me digas que tiveste uma pequena queda. Não faças um drama por nada. A vida da minha mãe está em jogo aqui!"

Uma vida em jogo.

E a vida do nosso filho?

"Leo, tivemos um acidente de carro," eu disse, a voz a falhar. "O nosso filho... ele não resistiu."

Houve um silêncio do outro lado da linha.

Durou apenas alguns segundos.

Mas pareceu uma eternidade.

"O quê? Como assim, não resistiu? O que é que fizeste, Catarina?" A sua voz explodiu, cheia de acusação, não de tristeza.

"Tu estavas a conduzir demasiado depressa, não estavas? Sempre te disse para teres cuidado! Agora olha o que aconteceu! Perdemos o nosso filho por tua causa!"

As suas palavras foram como golpes físicos.

Ele não perguntou se eu estava bem.

Ele não partilhou a minha dor.

Ele culpou-me.

"Eu estava a ir para o hospital," consegui dizer. "A tua irmã ligou-me a gritar que a tua mãe estava a morrer."

"E então? Devias ter sido mais cuidadosa! A minha mãe é idosa, ela tem problemas de coração! Tu és jovem, devias saber como lidar com a pressão!"

"Leo," eu disse, a minha voz subitamente fria e clara, a dor a transformar-se em algo duro e afiado. "Vamos divorciar-nos."

"Divórcio? Estás a brincar comigo?" ele riu, um som feio e sem humor. "Divorciar-te de mim agora? Depois de teres matado o nosso filho? Queres fugir à tua responsabilidade?"

"Catarina, não sejas ridícula. Estás em choque. A minha mãe precisa de mim agora. Vamos falar sobre isto mais tarde, quando estiveres mais calma."

Ele desligou.

Simplesmente desligou o telefone na minha cara.

Tentei ligar de volta.

O número estava ocupado.

Tentei outra vez.

Ele tinha-me bloqueado.

Deixei o telemóvel cair ao meu lado na cama do hospital.

O quarto estava silencioso, exceto pelo som suave dos meus próprios soluços, que eu tentava abafar.

Ele tinha razão numa coisa.

Se o nosso filho ainda estivesse aqui, eu nunca pensaria em divórcio.

Eu lutaria por esta família, por ele.

Mas agora, não havia mais nada pelo que lutar.

A única coisa que nos unia tinha desaparecido.

E a sua reação mostrou-me a verdade que eu me recusava a ver.

Para ele, eu e o nosso filho éramos secundários.

A sua mãe, a sua família de origem, vinha sempre em primeiro lugar.

Enquanto eu estava ali, sozinha e de luto, a minha sogra, a Dona Isabel, começou a gritar no quarto ao lado.

Eu conseguia ouvir a sua voz através da parede fina.

"Onde está o meu filho? Onde está o Leo? Eu preciso dele! Aquela Catarina, ela nunca gostou de mim! Ela está a tentar afastar o meu filho de mim!"

Depois, a voz de Sofia, a minha cunhada, a acalmá-la.

"Calma, mãe. O Leo está aqui. Ele não vai a lado nenhum. A Catarina é o problema, sempre foi. Mas não te preocupes, vamos dar um jeito nela."

Fechei os olhos.

A minha família.

A família que eu pensava ter.

Era tudo uma mentira.

---

Capítulos
Personalizar
Próximo Capítulo

Você pode gostar

Logo
Seu guia para os melhores dramas curtos online. Prévias gratuitas, informações completas do elenco e links para plataformas oficiais — tudo em um só lugar.
©2026 PinesDramas Todos os direitos reservados