Ele Me Deixou Sem Nada, Eu o Deixei Sem Futuro

Uma enfermeira entrou no quarto algumas horas depois.

O seu rosto era gentil, mas os seus olhos estavam cheios de pena.

"Senhora Alves, o seu marido pagou a sua conta," disse ela suavemente. "Mas ele deixou instruções para a sua alta amanhã de manhã."

"Amanhã?" eu perguntei, a minha voz ainda rouca. "Mas o médico disse que eu precisava de observação."

A enfermeira desviou o olhar, desconfortável.

"As instruções dele foram claras. Ele disse que a senhora está bem o suficiente para recuperar em casa."

Ele estava a expulsar-me do hospital.

Para que eu não "incomodasse" a sua mãe.

"E os arranjos... para o meu filho?" perguntei, a palavra a sair com dificuldade.

A enfermeira hesitou.

"O seu marido também tratou disso. Ele optou pelo procedimento mais simples. Será tratado pelo hospital."

O procedimento mais simples.

Isso significava que o meu bebé seria tratado como resíduo médico.

Sem funeral.

Sem despedida.

Sem dignidade.

Uma raiva fria começou a crescer dentro de mim, empurrando a dor para o lado.

"Não," eu disse, a minha voz firme. "Isso não vai acontecer."

Sentei-me na cama, ignorando a dor aguda no meu corpo.

"Eu quero o corpo do meu filho. Eu mesma vou tratar do funeral."

A enfermeira parecia aliviada.

"Claro, senhora. É seu direito. Vou tratar da papelada."

Quando ela saiu, peguei no meu telemóvel novamente.

O número de Leo ainda estava bloqueado.

Liguei para a minha cunhada, Sofia.

Ela atendeu no primeiro toque.

"O que queres, Catarina?" a sua voz era puro veneno. "Não vês que estamos a passar por um momento difícil? A mãe quase morreu!"

"Eu sei, Sofia. Eu também perdi o meu filho," respondi, mantendo a minha voz calma.

"Ah, isso," ela disse, com um desdém que me gelou o sangue. "Acontece. Pelo menos podes tentar de novo. A minha mãe só tem uma vida."

A sua crueldade deixou-me sem fôlego por um momento.

"Sofia, eu preciso de falar com o Leo. Ele bloqueou-me."

"Claro que te bloqueou. Ele não quer falar contigo agora. Tu só lhe causas stress. Ele está a concentrar-se na recuperação da mãe."

"Eu preciso do dinheiro para o funeral do nosso filho," eu disse, direta. "O nosso filho. O sobrinho de vocês."

Houve uma pausa.

"Funeral? Que funeral? O Leo disse que o hospital ia tratar de tudo. Não há necessidade de fazer um grande alarido por causa disto."

"Eu quero um funeral para o meu filho," repeti, a minha voz a tremer de raiva contida. "E eu preciso do dinheiro da nossa conta conjunta para pagar."

Sofia suspirou, um som de pura exasperação.

"Olha, Catarina, agora não é uma boa altura. O dinheiro... bem, usámos a maior parte para a cirurgia privada da mãe. Sabes como estas coisas são caras."

"Vocês usaram o nosso dinheiro?" perguntei, incrédula. "O dinheiro que estávamos a guardar para o bebé?"

"Era uma emergência! A vida da mãe estava em risco! O que esperavas que fizéssemos? O Leo concordou, claro. A mãe dele é a prioridade."

Claro que era.

"Eu não me importo, Sofia. Eu preciso desse dinheiro. Agora."

"Não sejas egoísta!" ela gritou. "Sempre a pensar em ti! O mundo não gira à tua volta, sabias? Supera isso. Aconteceu. Segue em frente."

Ela desligou.

Eu fiquei a olhar para o telemóvel na minha mão.

Eles tinham-me tirado tudo.

O meu filho.

A minha dignidade.

O meu dinheiro.

Eles deixaram-me sem nada.

Mas eles estavam enganados sobre uma coisa.

Eu não ia "superar isso".

Eu ia lutar.

Pela memória do meu filho.

E por mim mesma.

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