Divórcio: O Preço da Lealdade Dividida

Quando abri os olhos, o cheiro de desinfetante encheu as minhas narinas. O meu braço direito doía, coberto por uma gaze espessa.

A enfermeira entrou, verificou o meu soro e disse com uma voz suave: "Você acordou. O seu marido, o Senhor Alves, pagou as contas e disse que voltaria mais tarde."

"Onde está a minha filha, a Sofia?", perguntei, a minha voz rouca.

"Ela está bem, não se preocupe. O seu marido levou-a para casa primeiro. Ela ficou assustada, mas está segura."

Senti um alívio momentâneo, mas depois uma sensação estranha tomou conta de mim. O Diogo levou a Sofia para casa? Mas a casa estava vazia. Nós tínhamos acabado de nos mudar para Lisboa, não tínhamos família nem amigos aqui.

Peguei no meu telemóvel com a mão esquerda. Havia dezenas de chamadas não atendidas da minha mãe.

Antes que eu pudesse ligar de volta, uma mensagem do Diogo apareceu no ecrã.

"Helena, a Sofia está com a minha mãe. A Clara também se assustou muito com o acidente, e a mãe está a cuidar das duas. Eu estou a caminho do hospital. Fica aí e não te mexas."

Clara. A filha da sua ex-mulher.

O meu peito apertou. O acidente. Nós fomos atingidos por um carro que passou o sinal vermelho. Eu usei o meu corpo para proteger a Sofia, e o meu braço foi esmagado contra a porta do carro.

O Diogo chegou logo depois, com uma expressão de pânico. Mas quando viu que a Sofia estava apenas assustada e a chorar, o seu alívio foi visível. Ele nem sequer olhou para o meu braço ensanguentado.

A sua atenção foi imediatamente desviada por uma chamada. Era a sua ex-mulher, a chorar histericamente. A filha dela, a Clara, tinha visto o acidente da janela do apartamento do outro lado da rua e estava em choque.

"Eu preciso de ir, Helena. A Clara precisa de mim", ele disse, já a afastar-se.

"Diogo, espera! E a Sofia? E eu?", gritei, mas ele já estava a correr.

Agora, no hospital, a realidade atingiu-me. Ele levou a nossa filha para a casa da avó, para que a avó pudesse cuidar da neta e da filha da ex-nora. Ele deixou-me sozinha.

Respirei fundo e liguei-lhe. Ele atendeu rapidamente.

"Helena? Estás bem? Estou a chegar."

"Diogo, vamos divorciar-nos."

Houve um silêncio do outro lado da linha, depois a sua voz ficou fria. "Estás a brincar? Por causa disto? Eu não te deixei sozinha, paguei a conta. A Clara estava em choque, ela é só uma criança."

"A nossa filha também é uma criança, Diogo. Ela estava no acidente. Eu estou ferida."

"Eu sei! Mas a Sofia está bem! A tua lesão não é fatal! A Clara tem um trauma psicológico, é diferente! Porque é que não consegues ter um pingo de empatia?"

Empatia. Ele pedia-me empatia.

"Traz a Sofia de volta para mim, Diogo. Agora."

"Não sejas ridícula. Ela está a dormir com a Clara. Não vou acordá-las agora. Precisas de descansar e parar de ser tão egoísta. Falamos amanhã."

Ele desligou.

Olhei para o teto branco do hospital. Egoísta. Eu era egoísta por querer a minha filha comigo depois de um acidente traumático.

Tentei ligar novamente, mas a chamada foi direta para o correio de voz. Ele tinha-me bloqueado.

As lágrimas que eu segurava finalmente caíram. Não eram lágrimas de tristeza, mas de uma clareza dolorosa. Este casamento tinha acabado há muito tempo. Eu apenas me recusava a ver.

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