Divórcio: O Preço da Lealdade Dividida

No dia seguinte, o Diogo apareceu com um saco de fruta e um sorriso forçado.

"Como te sentes? O médico disse que precisas de mais alguns dias de observação."

Ele colocou a fruta na mesa de cabeceira, evitando o meu olhar.

"Onde está a Sofia?", perguntei, a minha voz sem emoção.

"Ela está bem. A minha mãe levou-a e à Clara ao parque. Elas precisam de se distrair."

Ele falava da Clara como se ela fosse nossa responsabilidade. Como se o seu bem-estar fosse tão importante quanto o da nossa própria filha.

"Eu quero o divórcio, Diogo."

Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. "Helena, já falámos sobre isto. Estás a exagerar. Foi uma situação de emergência."

"Uma emergência onde escolheste a filha da tua ex-mulher em vez da tua própria família."

"Eu não escolhi! Eu cuidei de todos! A Sofia está segura, tu estás a ser tratada. Qual é o problema?"

"O problema é que tu nem sequer olhaste para mim, Diogo. O teu primeiro instinto foi correr para a Clara. O problema é que a minha filha está a ser consolada pela mesma mulher que me odeia, enquanto eu estou aqui sozinha."

"A minha mãe não te odeia!", ele defendeu-a instantaneamente.

"Ela odeia. E tu sabes disso."

Ele ficou em silêncio. A sua mãe, a Dona Amélia, nunca me tinha perdoado por não ser a Inês, a sua primeira nora perfeita.

"Não vamos tomar decisões precipitadas enquanto estás magoada e emocional", disse ele finalmente, num tom paternalista. "Pensa na Sofia. Queres que ela cresça numa família desfeita?"

Era sempre o seu trunfo. A Sofia. Ele sabia que eu faria qualquer coisa por ela.

Mas desta vez, algo tinha mudado. O acidente não tinha apenas partido o meu osso, tinha partido a ilusão que eu mantinha.

"Sim, Diogo. Eu quero que ela cresça longe disto. Longe de um pai que a trata como uma segunda opção."

A sua cara endureceu. "Isso não é verdade e tu sabes."

"É? Então porque é que, há dois meses, perdeste o recital de ballet dela para ires ao jogo de futebol do filho do novo namorado da Inês? Porque é que lhe deste o tablet que eu disse que não queria que ela tivesse, só porque a Clara tem um igual?"

Ele não tinha resposta. Apenas me olhava com uma mistura de raiva e frustração.

"Tu estás a tornar as coisas impossíveis, Helena."

"Não. Tu tornaste-as impossíveis."

A porta do quarto abriu-se e a minha mãe entrou, com o rosto carregado de preocupação. Ela olhou do meu braço engessado para a cara tensa do Diogo.

"Filha! Eu liguei tantas vezes! O que aconteceu?"

Antes que eu pudesse responder, o telemóvel do Diogo tocou. Ele olhou para o ecrã e a sua expressão suavizou-se instantaneamente.

"É a Inês", disse ele, como se isso explicasse tudo. "Tenho de atender."

Ele saiu do quarto para falar ao telefone, deixando-me ali com a minha mãe e o silêncio pesado.

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