De Pianista a Professora: Um Novo Acorde

O médico entrou no quarto para o check-up da manhã, a sua expressão era séria.

"Dona Beatriz, os seus ferimentos na cabeça são a nossa principal preocupação. Precisamos de fazer mais alguns exames para garantir que não há danos permanentes."

Ele olhou para a minha mão enfaixada.

"Quanto à sua mão, o dano nos tendões foi severo. Com fisioterapia intensiva, poderá recuperar a maior parte do movimento, mas..."

Ele hesitou.

"Mas?" eu insisti, já a sentir um frio no estômago.

"A sua carreira como pianista... provavelmente acabou. A destreza necessária... será impossível de alcançar novamente."

As palavras dele caíram sobre mim como uma laje de betão.

O piano não era apenas a minha carreira. Era a minha vida. A minha paixão. A minha fuga.

A Dona Elvira apressou-se a intervir, com um sorriso forçado.

"Oh, não se preocupe com isso, doutor! É até melhor assim. Uma mulher casada deve focar-se em casa, no marido. O Pedro ganha o suficiente para nós os dois. Agora ela pode ser uma dona de casa a tempo inteiro, como deve ser."

Eu olhei para ela, incrédula. Ela estava a descartar a minha vida inteira como se fosse um hobby inconveniente.

"Não," eu disse, a minha voz firme, surpreendendo-nos a ambas. "Eu não vou ser uma dona de casa."

"Beatriz!" ela repreendeu-me. "Não sejas ingrata. O Pedro cuida de ti."

"Ele não estava aqui," eu respondi, cada palavra cortando o ar. "Ele não estava aqui quando eu acordei. Ele não estava aqui quando o médico me disse que o nosso filho morreu. Ele não está aqui agora."

A porta abriu-se nesse momento e o Pedro entrou, a sua cara uma máscara de preocupação ensaiada.

"Querida, desculpa a demora. A Sofia estava com muitas dores, tive de esperar que o médico a medicasse."

Ele veio para me abraçar, mas eu recuei. O cheiro do perfume dela, o mesmo que eu lhe tinha dado no aniversário dela, estava impregnado na sua camisa.

"Não me toques," eu disse, a minha voz baixa e perigosa.

Ele parou, confuso. "Beatriz, o que se passa? Eu vim assim que pude."

"Assim que pudeste?" Eu ri, o som a rasgar a minha garganta. "O médico acabou de me dizer que eu nunca mais vou poder tocar piano. Que a minha carreira acabou. Onde estavas tu quando eu precisava de ti?"

A sua expressão mudou de preocupação para irritação.

"Estás a exagerar. É só um piano. Eu compro-te outro! Podes tocar em casa, para mim. Qual é o problema?"

"O problema, Pedro," eu disse, olhando diretamente nos olhos dele, "é que tu és o problema. Eu quero o divórcio."

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