Quando acordei, a primeira coisa que senti foi o cheiro forte de desinfetante. O teto branco do hospital parecia girar.
A minha cabeça doía terrivelmente, e a minha mão direita estava ligada com uma gaze grossa.
Ao meu lado, a minha sogra, a Dona Elvira, suspirou com alívio.
"Graças a Deus, acordaste, Beatriz. Assustaste-nos a todos de morte."
Eu olhei para ela, a minha voz rouca. "Onde está o Pedro?"
O sorriso dela congelou. Ela evitou o meu olhar e começou a descascar uma maçã.
"O Pedro... ele teve de ir tratar de um assunto urgente para a Sofia. Sabes como ela é, não consegue fazer nada sozinha."
Sofia. O nome dela soou como um eco doloroso na minha cabeça.
A minha melhor amiga. E a mulher que o meu marido parecia sempre priorizar.
Peguei no meu telemóvel com a mão esquerda. Havia dezenas de chamadas não atendidas, todas minhas para o Pedro.
Liguei novamente. Desta vez, ele atendeu quase imediatamente, mas a sua voz estava cheia de irritação.
"Beatriz? O que foi agora? Estou ocupado."
Ao fundo, ouvi a voz doce e chorosa da Sofia. "Pedro, o meu braço dói tanto. Podes ajudar-me a segurar o copo? Sou tão inútil."
A minha garganta secou. Eu tinha acabado de sofrer um acidente de carro. Tinha perdido o nosso filho. E ele estava a cuidar dela porque o braço dela doía.
"Pedro," eu disse, a minha voz a tremer, "vamos divorciar-nos."
Houve um silêncio do outro lado, seguido por uma explosão de raiva.
"Divórcio? Ficaste maluca? Só porque não pude estar aí quando acordaste? Eu salvei a Sofia! O carro dela capotou perto do meu, era minha obrigação ajudá-la! Não tens um pingo de compaixão?"
Salvá-la? O acidente dela foi a quilómetros do meu. Ele não a "salvou". Ele foi até ela.
"E o nosso filho, Pedro?" a minha voz quebrou. "Ele morreu."
"Eu sei que é triste, Beatriz," ele disse, o seu tom a suavizar-se falsamente. "Mas estas coisas acontecem. Não podes usar isso como desculpa para acabares com o nosso casamento. Pensa bem. A Sofia precisa de mim agora. Sê razoável."
Ele desligou.
Simplesmente assim.
O telemóvel caiu da minha mão. O som ecoou no quarto silencioso.
Eu olhei para o meu ventre. Ontem, carregava uma vida. Hoje, estava vazio. A única ligação que me prendia a ele, a esperança de uma família, tinha desaparecido.
A Dona Elvira olhou para mim, a sua expressão era de desaprovação.
"Beatriz, não podes ser tão egoísta. A Sofia é como uma irmã para o Pedro. Ela não tem ninguém. Tu tens-nos a nós."
Eu ri. Um som seco e sem alegria.
"Ela tem o meu marido. Eu não tenho nada."
Ela abanou a cabeça, desapontada. "Estás a ser dramática por causa da perda. Vais superar. Mas um bom marido como o Pedro é difícil de encontrar."
Sim, tão difícil de encontrar que a Sofia parecia tê-lo encontrado também.





