De Esposa Submissa À Guerreira

Karla POV:

Karla! Por que você não me avisou que a ativação da nossa aliança de companheiros precisaria de tanto ritual? Eloá está completamente confusa com a complexidade! A voz de Vítor, em minha mente, era um sussurro distorcido de fúria.

Eu era a Escolhida. A companheira destinada de Vítor Ramos. Essa era a verdade que Vítor, no auge de sua arrogância, se recusou a aceitar quando descobriu. Era um choque para ele, o herdeiro de um império, estar ligado a uma mulher de origens tão "humildes", como ele gostava de frisar.

Lembro-me do dia em que o contrato foi assinado. Seus olhos dourados, que um dia eu imaginei cheios de amor, estavam frios e calculistas. "Eu não a amo," ele disse, as palavras cortando o ar como lâminas. "Mas a tradição exige. Para a estabilidade de nosso povo, para a prosperidade do conglomerado, eu aceito."

Ele me olhou de cima a baixo, um escrutínio que me fazia sentir menor que um grão de areia. "Você não é o tipo de companheira que eu esperava. Mas, se é o que os anciãos querem, que seja. Você ficará comigo por três anos. Três longos anos. Após esse período, o contrato será dissolvido, e você estará livre. Com uma generosa compensação, é claro. Dinheiro nunca será um problema para você."

Ele deixou claro que eu era um fardo, uma obrigação. "Não espere nada além do essencial. E não tente se apegar. Eu nunca serei seu."

Ainda assim, como membro de um povo oprimido, eu concordei. Era pela minha comunidade, pela chance de ascensão social que Vítor poderia involuntariamente proporcionar. Eu me agarrava à ideia de ser útil, de fazer a diferença. Minha comunidade. Essa era a minha motivação.

Nos primeiros meses, Vítor, surpreendentemente, me orientou. Ele me ensinou sobre o conglomerado, sobre as complexidades da política inter-clãs, sobre como navegar no mar traiçoeiro da alta sociedade. Ele tinha uma paciência que eu não esperava.

Ele explicava cada detalhe, cada nuance dos eventos que eu teria que organizar, das alianças que eu precisaria manter. Ele verificava meu progresso diariamente, testando meus conhecimentos, corrigindo meus erros. Eu via um vislumbre do homem que ele poderia ser, e, por um breve período, uma chama de esperança se acendeu em meu coração. Talvez, eu pensava, talvez ele pudesse me amar, afinal.

Mas a chama logo se apagou. À medida que eu me tornava mais competente, mais independente em minhas funções, Vítor começou a se afastar. As verificações diárias se tornaram semanais, depois mensais. Eventualmente, ele parou de perguntar. Ele simplesmente esperava que eu fizesse meu trabalho, e eu fazia.

Eu me tornei a sombra nos bastidores, a organizadora impecável, a anfitriã perfeita. Eu era a responsável por todos os eventos sociais da empresa, aqueles que ele negligenciava para se concentrar no "trabalho de verdade".

Ele nunca comparecia aos eventos sociais comigo, exceto quando era absolutamente necessário. "Você não tem o sangue para isso, Karla," ele costumava dizer. "Você não entende a importância de uma verdadeira linhagem."

Mas eu me recusava a me curvar. Eu me recusava a decepcionar as poucas pessoas que acreditavam em mim. Eu não queria envergonhar a si mesma, nem a Vítor, nem tampouco a minha comunidade que tanto havia investido para que eu pudesse estar ali. Eu queria que eles prosperassem.

Eu me dedicava de corpo e alma. Começava a planejar os eventos com meses de antecedência, supervisionando cada detalhe, desde o cardápio até a lista de convidados mais intrincada. Eu garantia que tudo fosse impecável, que cada evento fosse um sucesso retumbante. Eu me esforçava para que não houvesse uma única falha, uma única mancha no nome de Vítor Ramos ou do conglomerado.

Eu queria provar meu valor. Não para ele, não mais. Mas para mim mesma. Para a comunidade que eu representava. Eu queria que Vítor, um dia, percebesse o que estava perdendo.

Ah, como eu fui tola.

A voz de Vítor, em minha mente, continuava. Você sabia que era assim tão complicado! Eloá está em prantos porque não consegue entender os símbolos antigos necessários para a ativação! O que você fez, Karla? O que você fez para que isso fosse tão difícil para ela?

Eu fechei os olhos. A raiva dele era quase palpável, mesmo à distância. Ele estava me culpando pelo que a incompetência de Eloá causou. Eu estava cansada. Cansada do desprezo, das acusações, da cegueira dele. Eu estava tão, tão cansada.

Eu abri a boca para responder, mas as palavras pareciam presas em minha garganta. O que eu poderia dizer? Que ele nunca se importou em aprender os rituais, nem em me explicar a fundo? Que ele me deixou organizar tudo sozinha, sem nunca se importar com a verdadeira complexidade?

Mas qual era o sentido? Três anos. Três anos de tentativas falhas de me fazer entender. Não. Eu não gastaria minha energia.

Vítor, eu pensei, deixando que a minha voz fosse tão fria e distante quanto a dele. É um ritual ancestral. Não é algo que se aprende em um dia. Ou em uma semana. Ou em um mês. Eu os adaptei, na medida do possível, para serem mais compreensíveis. Mas a essência... a essência exige dedicação.

Houve um silêncio em nossa conexão. Ele não esperava que eu lhe respondesse com tal frieza. Ele esperava a subserviência, a Karla de sempre, pedindo desculpas por algo que não havia feito. Ele esperava a mulher que imploraria por seu carinho, por sua atenção, por sua mínima consideração.

Mas aquela Karla havia morrido. Morreu um pouco a cada dia, durante os últimos três anos. Morreu de vez quando ele exibiu Eloá como um troféu, enquanto eu estava de pé, invisível, no canto do salão.

O silêncio dele me deu força. Eu não precisava mais me explicar. Não precisava mais justificar a minha existência.

Se Eloá está tendo dificuldades, eu continuei, minha voz um fio de gelo, talvez ela não seja a pessoa certa para isso. Ou talvez, Vítor, a dedicação dela não seja tão grande quanto você pensa.

Eu sabia que minhas palavras o atingiriam. Não pela verdade, mas pela audácia de quem as proferia. Eu, a mulher humilde, ousando questionar as escolhas dele? A mulher que ele via como um nada, ousando dar conselhos?

O silêncio se prolongou. Eu podia quase ver seu rosto contorcido em fúria. A satisfação momentânea de ter quebrado sua compostura foi a única coisa que me manteve calma.

Não... não adianta. Não vou me justificar mais. A aliança de companheiros ainda estava ativa. Três dias. Três dias para o fim. Três dias para a minha liberdade.

Eu me virei da parede com as fotos rasgadas, sentindo uma leve brisa vinda da janela aberta. Olhei para a paisagem noturna. O mundo estava lá fora, esperando por mim.

Eu não o amava mais. Não havia mais nada para amar.

Eu ouvi um som vindo do corredor. Passos apressados. Pesados. Vítor. Ele estava vindo. E ele não estava feliz.

Eu respirei fundo. Meus lábios se curvaram em um sorriso amargo. Que venha a tempestade. Eu não tinha mais nada a perder.

O contrato estava no fim. E a minha paciência também.

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