Karla POV:
Vítor, eu pensei, minha voz mental soando fria e distante, é um ritual ancestral. Não é algo que se aprende em um dia. Ou em uma semana. Ou em um mês. Eu os adaptei, na medida do possível, para serem mais compreensíveis. Mas a essência... a essência exige dedicação.
Houve um silêncio na nossa conexão mental. Ele não esperava que eu lhe respondesse com tal frieza. Ele esperava a subserviência, a Karla de sempre, pedindo desculpas por algo que não havia feito. Ele esperava a mulher que imploraria por seu carinho, por sua atenção, por sua mínima consideração. Mas aquela Karla havia morrido.
Se Eloá está tendo dificuldades, eu continuei, minha voz um fio de gelo, talvez ela não seja a pessoa certa para isso. Ou talvez, Vítor, a dedicação dela não seja tão grande quanto você pensa.
Eu sabia que minhas palavras o atingiriam. Não pela verdade, mas pela audácia de quem as proferia. Eu, a mulher humilde, ousando questionar as escolhas dele? O silêncio se prolongou. Podia quase sentir sua fúria crescendo.
Então, recebi um lampejo de memória. A voz de Vítor, meses atrás, quando eu estava planejando a festa final do nosso contrato. Ele havia me dado total liberdade. "Faça o que quiser, Karla. É o seu último evento. Apenas garanta que tudo seja impecável, como sempre."
Eu queria que fosse um adeus elegante. Uma despedida digna. Eu decorei o salão com as cores que ele uma vez disse que gostava, tons de azul escuro e prata, criando uma atmosfera de sofisticação discreta, como a nossa relação deveria ter sido. Eu organizei um menu que incluía seus pratos favoritos, e os meus também, na esperança de um último momento de partilha.
Eu até preparei um vídeo. Um vídeo com os raros momentos que compartilhamos, os poucos sorrisos genuínos, os momentos em que ele me ensinou, os vislumbres de uma conexão que eu tanto desejei. Eu queria que ele se lembrasse do que construímos juntos, dos sacrifícios que fiz. Queria partir com dignidade, com a cabeça erguida, mostrando a ele que eu havia tentado.
Mas quando cheguei ao salão, tudo havia mudado. As decorações em azul e prata foram substituídas por um dourado berrante e um rosa choque. Os arranjos de flores que eu escolhera com tanto carinho foram trocados por lírios caros e ostentosos. E o vídeo. Ah, o vídeo.
No lugar das minhas memórias, um novo vídeo rodava. Nele, Vítor e Eloá riam, dançavam, se beijavam. Ele a abraçava com uma ternura que eu nunca experimentei. Era um vídeo que celebrava o novo romance deles, sobrepondo-se impiedosamente ao meu adeus silencioso.
Eu pensei que não haveria mais lágrimas. Que meu coração estava seco. Mas quando vi a imagem de Vítor beijando Eloá, o vídeo que eu fiz para ele, o último resquício da minha esperança, se espatifou dentro de mim. Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto.
Lembrei-me dos poucos momentos em que Vítor não era Vítor. Lembrei-me quando ele me ensinou a caçar pela primeira vez. Sua voz era paciente, suas mãos firmes enquanto me guiavam. Ele sorriu quando acertei o alvo. Um sorriso raro, que me fez sentir que eu poderia mover montanhas.
Lembrei-me da primeira vez que saímos em uma caçada real, logo após o casamento. Um lobo selvagem nos surpreendeu. Vítor me empurrou para trás, seu corpo forte me protegendo enquanto ele enfrentava a fera. "Você está segura," ele sussurrou, e eu acreditei.
Lembrei-me do meu primeiro aniversário de casamento. Ele me deu uma pequena pulseira de prata, simples, elegante. "Para as suas responsabilidades," ele disse. Não havia amor em suas palavras, mas havia um reconhecimento. E para mim, naquele tempo, isso era suficiente.
Agora, meu "adeus" havia se transformado na celebração do "olá" deles. Meu coração doeu. Uma dor aguda, familiar, mas que pensei ter superado.
Ele se lembrava do contrato? Ele se lembrava que em apenas três dias seríamos completamente estranhos? Ou a presença de Eloá já havia apagado de sua mente qualquer vestígio da minha existência?
Eu me virei da parede, as fotos rasgadas a meus pés. Elas eram as provas do meu esforço, da minha dedicação, da minha ingênua esperança. E agora, elas eram apenas lixo.
Eu estava prestes a jogar os pedaços no lixo quando a voz de Vítor ecoou novamente em minha mente. Karla! Por que você não me avisou que a ativação da nossa aliança de companheiros precisaria de tanto ritual? Eloá está completamente confusa com a complexidade! Sua voz estava cheia de uma raiva familiar.
Ele continuou: Isso é um absurdo! Os rituais são insanos! Você não poderia ter simplificado isso? Eloá não consegue entender os símbolos antigos! Ela está apavorada e não pode com isso! A preocupação em sua voz, o pânico por Eloá, era um contraste gritante com a indiferença que ele sempre me mostrou. Ele estava preocupado com ela. Com a inexperiência dela.
Eu não conseguia acreditar. Ele estava me culpando pela incompetência dela. Pela falta de dedicação dela. Ele estava me culpando por algo que eu havia trabalhado tanto para simplificar, apenas para facilitar a vida dele.
Meus lábios se curvaram em um sorriso amargo. Ele estava realmente me testando, não estava? Estava testando os limites da minha paciência.
Mas eu não tinha mais paciência.
Karla, sua voz mental soou novamente, impaciente. Você está me ouvindo? Eu preciso de uma solução agora. Eloá está chorando.
Eu permaneci em silêncio. Sem resposta. Sem emoção. Apenas o vazio. Eu não lhe devia mais nada. O contrato estava no fim. E eu, finalmente, estava pronta para ir embora.
Eu ouvi os passos pesados no corredor novamente, desta vez mais próximos. A maçaneta rangeu. A porta se abriu com um estrondo. Vítor estava ali, seus olhos dourados em chamas, seu rosto contorcido em fúria. A mesma fúria que me acompanhou por três anos.
Mas desta vez, não era mais poderosa do que a minha indiferença. Era apenas um barulho. Um barulho que eu estava prestes a deixar para trás.



![Cada noite minha [#2 Trilogia do Inferno]](https://v.pinedrama.com/b1265344voduse1318177724/78d778e35001834806828252817/cNRWQ2uOfZcA.webp!15491.webp)

