Lisa nunca quis estar naquela situação. Mas ali estava.
Quarenta e oito horas sem dormir. O corpo inteiro doendo, a cabeça latejando, os olhos ardendo.
Lembrou de quando seu futuro havia sido selado.
Chegou do trabalho com os pés latejando, tirou os sapatos ainda na porta, como sempre fazia. A casa estava escura, o ventilador velho fazia aquele barulho que indicava estar prestes a quebrar. Mick, como sempre, deitado no sofá.
Não deveria estranhar, ele sempre dormia de dia e saía a noite. Mas algo chamou sua atenção.
O pano vermelho na mão, o rosto inchado, o sangue escorrendo pela boca.
- Mick?!
Correu e se ajoelhou no tapete. Tentou puxar o irmão para sentar. O pano estava encharcado, e as mãos dele tremiam como se o rapaz tivesse visto uma assombração.
- Que merda aconteceu com você, Mick?
A voz do rapaz saiu estranha, misturada ao choro desesperado. Os olhos dilatados pelo medo.
- Fiz bobagem, Lisa.
A menina se afastou um pouco, não gostou do tom. Mick continuou.
- Eu só queria o remédio. Era a última vez. Eu juro.
Lisa esfregou as mãos no rosto sem paciência, perdida, com raiva.
Mick fazia entregas. Só pegava e deixava em algum lugar, mas todos sabiam que os pacotes que ele entregava não eram lanches.
Ela já tinha pedido para ele parar. Quando conseguiu aquele emprego de recepcionista no estacionamento da Plats&Oky, achou que mudariam de vida. Talvez alugar um apartamento decente. Comer sem contar moedas.
Ele prometeu. O problema é que ele nunca cumpria.
- Fala logo, Mick! O que você fez agora.
- Eu cheguei no ponto de encontro, pedi um lanche, eles demoraram pra caramba. Fiquei esperando, aí chegaram uns conhecidos, rimos, falamos bobagem e quando percebi, o pacote tinha sumido.
- Você perdeu a entrega? Como sumido, Mike? Esses caras são perigosos, eu te avisei.
- Alguém deve ter pegado. Eu juro que não vi, não fui perdi, Lisa.
- Quanto?
Mick ficou pálido antes de responder.
- Vinte mil dólares.
Lisa se sentou no tapete.
- Vinte mil? Porra, Mick!
- Era pura. Duas barras. Já tinha comprador. Eles me deram dois dias.
Lisa sentiu a sala inteira girar.
- Não temos nem vinte dólares, Mick. Quanto mais vinte mil.
- Eu sei. Mas tem uma coisa. Uma chance.
Mick arrumou a postura antes de falar.
- Um russo. Rico mesmo. Daqueles que acendem o charuto com notas de cem. Chegou nos Estados Unidos pra fechar um negócio de milhões. Mas tá enrolado com os documentos.
- E daí, Mick. Eu sou a porra de uma recepcionista de estacionamento. Como acha que vou conseguir um Green card para um russo?
- Ele só precisa se casar com uma americana. Rápido. Vinte mil agora, oitenta no divórcio. Tudo legal. Casamento arranjado. Assina, casa, divorcia. Simples.
Lisa franziu a testa torcendo para que não fosse o que estava pensando.
- Mick, você me ofereceu pra esse cara?
- Eles vão me matar, Lisa. E você sabe que, se me matarem, eles não param em mim.
Ela sabia.
Dívidas assim viravam heranças.
Lisa aceitou. Aceitou por medo, porque ela seria a próxima, mas também porque amava o irmão.
Assinou o contrato sem ler. Um intermediário entregou o endereço da cerimônia. Alugou um vestido usando parte do dinheiro que recebeu em um envelope de couro.
E quando pensou que nada mais podia dar errado.
Deu!
Uma batida policial, uma vizinha denunciou os irmãos. Afirmou que eles usavam drogas. E como sempre, Lisa só ficou sabendo que ele estava com outro pacote quando ele jogou pela janela e a puxou para as escadas de emergência.
Desceram correndo, fugiram, mas aconteceu justo o dia do casamento.
- Igreja de São José!
Ela acreditou. Era uma igreja. Tinha flores. Tinha convidados. Era o suficiente.
Correu até a porta lateral. Nem percebeu que estava entrando em outra cerimônia.
A certa era São Bento.
E agora ela estava casada com um homem que comia donuts como se o mundo fosse acabar, sentado à sua frente, na lanchonete mais deprimente da cidade.
- Merda! Andrew, né? Me diz que nosso casamento foi só religioso. Eu ainda posso me casar?
Andrew riu despreocupado.
- Não foi, não. Já assinaram. Bem certinho. Parabéns, senhora Forts.
- Não! Droga! Eu ainda podia me casar com o russo! Eu preciso desse dinheiro, Andrew. Sério, nada contra você, mas a gente precisa se separar.
- Assim que eu conseguir pagar o aluguel, a gente anula. Sem drama.
Ela ficou ainda mais brava.
- E por que, exatamente, você se casou comigo?
- Porque você entrou na igreja e praticamente obrigou o padre. Eu estava com tudo pronto. Convidados, fotógrafo, florista. Só faltava uma noiva. Achei que você fosse um presente do universo.
- Você é um idiota.
- E você é perigosa de salto alto que queria dar um golpe em um russo e terminou se casando com um pobretão.
Lisa tentou ir embora, mas voltou.
- Eu não tenho onde dormir essa noite.
Ele nem piscou.
- Tenho um sofá. E uma cama. Você pode ficar no sofá, ou vamos para a lua de mel, por mim sem problemas.
- Você não vai me perguntar nada?
- Como assim?
- Sobre mim. Não quer saber o porquê eu aceitei me casar com um cara que eu nem conheço, porque preciso do dinheiro, nem por que não tenho uma casa?
Andrew olhou para o donut que ela não havia terminado.
- Não vai comer?
- NÃO!
Ele pegou o doce, mordeu satisfeito e só então respondeu.
- Fui largado no altar e estou em um bar comendo um doce ruim pra caralho com uma mulher linda que se tornou minha esposa. Não sou um imbecil, só preciso de tempo para decidir se você é o pior desastre da minha vida, ou um presente do universo.
Lisa sorriu. Pela primeira vez em dias.
- Se eu fosse você, apostava na primeira opção.
- Talvez eu seja bom em apostas ruins.
Saíram juntos e o que Lisa mais odiava era a sensação de que por pior que tudo aquilo parecesse, Andrew Forts fazia o seu mundo parecer menos podre.
Caminhou pela rua com o vestido erguido até os joelhos, sentia o olhar de Andrew queimando sobre ela.
E gostava disso, estranhamente gostava do marido errado, mas continuou andando ao lado de um estranho com quem estava casada e sem saber, jurada de morte por outro.





