Cicatrizes da Traição: A Herdeira que Tentaram Apagar

- Isso é assédio - Kátia disparou, as mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. - Você não pode simplesmente ordenar que ela saia do veículo.

Justino a ignorou. Olhava para a traseira do carro de Kátia.

- Sua lanterna traseira esquerda está queimada, Srta. Sena. Isso é uma infração. O Guarda Meireles vai preencher a autuação. Pode demorar um pouco.

Ele sinalizou para o novato.

- Cuide da motorista. Eu cuido da passageira.

Era uma mentira. Kelly sabia que o carro de Kátia estava em perfeitas condições. Kátia era meticulosa com a manutenção. Mas discutir com um Capitão em uma blitz era uma batalha perdida.

Justino abriu a porta de Kelly. A luz interna inundou a cabine, expondo-a.

- Para fora - disse ele. Duas palavras. Nenhuma inflexão.

Kelly agarrou o cinto de segurança sobre o peito.

- Não.

Justino se curvou mais. O rosto dele estava a centímetros do dela. Ela podia ver a barba por fazer no queixo, as linhas de exaustão ao redor dos olhos.

- Não faça uma cena, Kelly. Não me obrigue a te tirar desse carro na frente da sua amiga e dos meus oficiais.

O calor subiu ao rosto de Kelly. Vergonha. Ele sabia exatamente qual botão apertar. Sabia que ela odiava conflito, odiava ser um espetáculo.

Ela soltou o cinto. O som foi como um tiro no espaço pequeno.

Kelly saiu para o asfalto molhado. Suas pernas pareciam fracas, feitas de água.

Kátia começou a abrir a porta.

- Kelly...

O Guarda Meireles entrou no caminho dela.

- Senhora, por favor, permaneça no veículo.

Justino não esperou. Sua mão se fechou ao redor do braço de Kelly, logo acima do cotovelo. O aperto era firme, beirando o doloroso. Não o suficiente para deixar marca, mas o suficiente para guiar. O suficiente para controlar.

- Me solta - sibilou Kelly, tentando se desvencilhar.

Ele não soltou. Marchou com ela passando pelas viaturas, pelas luzes piscantes, em direção a um SUV preto estacionado nas sombras do acostamento. Não era uma viatura marcada. Era o veículo pessoal dele.

- Eu posso chamar um Uber - disse Kelly, fincando os saltos no chão.

Justino parou. Virou-se para ela, o corpo bloqueando o resto do mundo.

- Você não vai entrar no carro de um estranho a essa hora da noite.

- Não vou entrar no seu também. - Kelly enfiou a mão no bolso do casaco para pegar o celular. Precisava chamar uma carona. Precisava fugir dele.

A mão dele disparou. Arrancou o telefone das mãos dela antes que ela pudesse desbloquear a tela.

- Ei! - Kelly tentou pegar de volta.

Ele deslizou o aparelho para o bolso, bem ao lado da carteira de motorista dela.

- Eu sou seu marido. Estou te levando para casa.

- Estamos separados - disse Kelly, a voz subindo o tom.

- Estamos tendo uma briga - corrigiu ele. - Entra.

Ele abriu a porta do passageiro do SUV preto. Não a empurrou, mas sua presença era uma parede que a impelia para trás até ela cair no banco de couro.

Ele bateu a porta.

Antes que Kelly pudesse alcançar a maçaneta, ouviu o baque das travas centrais sendo acionadas.

Justino deu a volta pela frente do carro. Sua silhueta cortou os feixes dos faróis. Ele se movia com a graça de um predador, calmo e letal.

Subiu no banco do motorista. O interior do carro cheirava a ele. Era avassalador.

Ligou o motor. O V8 rugiu ganhando vida. Saiu para o trânsito, entrando agressivamente, cortando um táxi.

Kelly sentou com os braços cruzados, olhando pela janela. A cidade passava em um borrão de néon e chuva.

Sua mente vagou de volta para três dias atrás. A cozinha. O azulejo frio sob seus pés descalços.

Flashback.

- Não podemos continuar esperando, Justino - Kelly dissera, segurando o folheto da clínica de fertilização. - O Dr. Chagas diz que meus níveis estão caindo. Se quisermos fazer isso, tem que ser agora.

Justino nem tinha levantado os olhos do arquivo.

- Agora não, Kelly. O momento não é certo.

- Nunca é o momento certo! - Kelly gritara, jogando o folheto no balcão. - Já faz cinco anos. Por que você não quer um filho comigo?

Ele olhara para ela então, os olhos frios.

- Porque você não está estável o suficiente agora. Você é emotiva demais.

Então o telefone dele tocara. Ele olhara para a tela, a expressão mudando instantaneamente de aborrecimento para preocupação. Pegara o telefone e caminhara para o escritório, trancando a porta atrás de si.

Fim do Flashback.

Kelly estremeceu. A memória era mais fria do que o ar da noite.

Justino estendeu a mão e ajustou o botão do ar-condicionado. Ar quente explodiu das saídas.

- Você está com frio - disse ele. Não era uma pergunta. Ele notava tudo. Fazia parte do trabalho, parte da natureza dele. Conseguia identificar um suspeito tremendo a cinquenta metros de distância.

- Estou bem - disse Kelly, embora seus dentes estivessem batendo.

- Para com isso - disse ele suavemente. - Para de lutar comigo em tudo.

- Você me sequestrou - disse Kelly.

- Eu te resgatei de uma parada na estrada.

- Você causou a parada.

Ele não negou. Apenas manteve os olhos na estrada.

Kelly olhou para as placas de rua. Estavam indo para o oeste. Para o subúrbio. Para a casa.

- Não vou voltar para lá - disse Kelly, o pânico explodindo novamente. - Me leva de volta para a casa da Kátia.

- Não - disse Justino. - Você já provou seu ponto. Ficou longe por três dias. Me assustou. Agora vamos para casa.

- Te assustei? - Kelly riu, um som amargo. - Você nem ligou.

O maxilar dele se contraiu. Um músculo saltou em sua bochecha.

- Eu sabia onde você estava. Estava te dando espaço. Até hoje à noite.

- O que mudou hoje à noite?

Ele não respondeu. Apenas pisou mais fundo no acelerador.

Capítulos
Personalizar
Próximo Capítulo

Você pode gostar

Logo
Seu guia para os melhores dramas curtos online. Prévias gratuitas, informações completas do elenco e links para plataformas oficiais — tudo em um só lugar.
©2026 PinesDramas Todos os direitos reservados