Cicatrizes da Traição: A Herdeira que Tentaram Apagar

- Justino, encosta o carro - exigiu Kelly. - Eu não vou voltar para aquela casa.

Ele a ignorou. O velocímetro subia. 100. 110. Costurava o trânsito com facilidade treinada, a mão esquerda descansando casualmente no topo do volante.

Kelly afundou no banco, derrotada. Não havia sentido em lutar contra ele quando ele estava assim. Era uma parede de granito.

O silêncio no carro se esticou, denso e sufocante.

O telefone dele estava no porta-copos entre eles. Virado para cima.

Zzzzt.

A tela se iluminou.

Os olhos de Kelly dispararam para ela automaticamente.

Uma prévia de mensagem apareceu na tela bloqueada.

Remetente: A

Mensagem: Dói tanto... onde você está?

O coração de Kelly falhou uma batida, depois bateu com força contra as costelas. A intimidade daquilo. O desespero. Seu olhar prendeu-se não apenas nas palavras, mas no número desconhecido abaixo da inicial. Uma sequência de dígitos, código de área 617. Sua mente, uma armadilha estranha e involuntária para números e padrões, arquivou aquilo sem seu consentimento.

A reação de Justino foi instantânea.

Sua mão largou o volante e bateu com a palma para baixo sobre o telefone. O movimento foi tão rápido, tão brusco, que o SUV guinou levemente para o acostamento. As faixas de alerta vibraram sob os pneus - brrrrt - antes que ele corrigisse o curso.

Ele agarrou o telefone e o enfiou fundo no bolso da calça.

Kelly encarou o perfil dele. Ele olhava para frente, o rosto rígido.

- Quem é? - perguntou Kelly. Sua voz soou oca aos seus próprios ouvidos.

- Spam - disse ele. - Número errado.

- Mensagens de spam não dizem "Dói tanto" - disse Kelly. - E você não quase bate o carro tentando esconder um número errado.

Ele apertou o volante com mais força. Os nós dos dedos estavam brancos.

- É uma vítima de um caso em que estou trabalhando. Ela é... instável. Mentalmente.

- Então você tem uma vítima salva no seu telefone pessoal como "A"?

- É um codinome - disse ele rapidamente. Rápido demais. - Para proteger a identidade dela.

- Você está mentindo - sussurrou Kelly.

Ele exalou bruscamente pelo nariz.

- Não começa, Kelly. Não brinque de detetive. Você não é boa nisso.

- Eu não preciso ser detetive para saber quando meu marido está mentindo para mim.

- Estou protegendo uma testemunha! - ele explodiu. A voz encheu o carro, alta e irritada. - É o meu trabalho. É confidencial. Para de forçar.

Ele estava virando o jogo contra ela. Fazendo dela a irracional. A esposa bisbilhoteira que não entendia as complexidades do trabalho heroico dele.

Viraram na entrada do condomínio fechado. Os portões de ferro se abriram quando o transponder dele enviou o sinal. Subiram a entrada sinuosa até a grande casa estilo colonial que Kelly passara cinco anos tentando transformar em um lar.

Parecia uma fortaleza agora.

Justino entrou na garagem. A porta pesada desceu atrás deles com um estrondo, bloqueando as luzes da rua, selando-os lá dentro.

Ele desligou o motor. O silêncio voltou, mais pesado do que antes.

Soltou o cinto de segurança e virou-se para olhar Kelly. Sua expressão havia suavizado. A raiva se fora, substituída por uma paciência cansada e paternalista.

- Estamos em casa - disse ele. - Vamos entrar. Comer alguma coisa. Dormir. Podemos conversar de manhã.

Kelly olhou para ele - esse homem bonito e poderoso que um dia fora o mundo inteiro dela. Sentiu uma onda de náusea.

- Não quero falar com você - disse Kelly. - Não quero nem olhar para você.

Ela abriu a porta e saiu desajeitada. Precisava fugir do cheiro dele, da mentira que pairava no ar.

Justino foi mais rápido. Alcançou-a na porta da área de serviço. Agarrou o pulso dela.

- Kelly...

O celular dela, ainda no bolso dele, vibrou.

Ele o puxou. A tela se iluminou com o nome de Kátia. Uma mensagem.

Ele olhou. Os olhos se estreitaram.

Então, segurou o botão de desligar.

- O que você está fazendo? - Kelly tentou pegar.

- Desligando o barulho - disse ele.

A tela ficou preta. Ele colocou o telefone morto de volta no bolso.

- Você está me cortando do mundo - disse Kelly, percebendo a extensão do que ele estava fazendo. - Está me isolando.

- Estou te ajudando a focar - disse ele, abrindo a porta da casa. - Em nós.

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