Liana Magalhães era a única herdeira do Grupo Magalhães, o império do agronegócio brasileiro, conhecido como o rei do café e da soja.
Seu pai, um viúvo poderoso e superprotetor, não confiava em ninguém de fora para cuidar de sua filha. Por isso, adotou sete jovens órfãos, todos talentosos e de origem humilde.
Eles foram criados como parte da família, os "protegidos". A esperança do meu pai era que um deles se mostrasse digno de se casar comigo e co-gerir o império.
Mas eu só tinha olhos para um.
Tiago.
Ele era o mais competente de todos, um gerente de fazenda brilhante, mas também o mais frio. Ele me tratava com uma distância que me deixava louca, e isso só aumentava minha obsessão.
Os outros seis? Eu mal os notava. Lucas era um "tigre sorridente", charmoso demais, bajulador demais, e eu detestava isso. Os outros adotavam personas que sabiam que eu desprezava: o bad boy, o artista sofredor, o intelectual arrogante. Eu não queria nenhum deles.
Hoje era a grande Festa Junina na fazenda principal. A fogueira queimava alta, a música tocava animada. Eu decidi que era a noite. Iria me declarar para Tiago, acabar com essa angústia de uma vez por todas.
Procurei por ele em meio à multidão, meu coração batendo forte. Finalmente, o vi.
Mas ele não estava sozinho.
Atrás da fogueira, na penumbra alaranjada, ele segurava o rosto de Sofia, sua "prima". Ela também era órfã, acolhida junto com ele. Todos a viam como a "flor do sertão", uma moça doce e pura.
Ele a beijou.
Não foi um beijo de irmão. Foi um beijo apaixonado, desesperado.
Meu mundo parou. O som da festa desapareceu. Eu só conseguia ver suas bocas se movendo juntas. Senti um frio que nada tinha a ver com a noite. Dei um passo para trás, depois outro, e fugi dali antes que alguém me visse.
No dia seguinte, durante o churrasco de domingo, a dor ainda estava cravada no meu peito. Eu me mantive afastada, sentada na varanda, fingindo ler um livro. Foi quando ouvi as vozes dos outros seis protegidos vindo da área da piscina.
"A Liana viu? Alguém sabe se ela viu o Tiago e a Sofia ontem?"
"Espero que não. Ia estragar todo o plano."
"Que plano? O Tiago vai ter que se sacrificar de qualquer jeito. Casar com a princesinha para garantir que a nossa Sofia continue vivendo no luxo."
"É, coitado do Tiago. Mas pelo menos a gente fica livre. Já pensou ter que aguentar aquela mimada pro resto da vida? Ainda bem que ela odeia a gente."
"É verdade. Ser bajulador como o Lucas funciona. Ela detesta. Ser rebelde também. Ela nunca olharia pra mim."
Eles riram. Zombando de mim.
Tudo era uma farsa. A bajulação, a rebeldia, a arrogância. Tudo para que eu os rejeitasse. Para que eles pudessem "competir de forma justa" por Sofia. Todos eles a amavam.
E Tiago, o homem que eu amava, ia se casar comigo por obrigação, por pena, para que a mulher que ele realmente amava pudesse continuar vivendo como uma rainha às minhas custas.
A humilhação me sufocou. A traição era total, vinda de todos os lados.
Meu pai me encontrou ali, pálida e tremendo.
"Filha, o que aconteceu?"
Eu levantei a cabeça, as lágrimas secas no meu rosto. A garota ingênua morreu naquela varanda.
"Pai, ligue para o Bruno. Diga a ele que eu aceito a proposta de casamento."
Bruno era filho de um magnata industrial de São Paulo, amigo da nossa família. Um playboy, sim, mas que me pedia em casamento desde a adolescência. Ele sempre disse que me amava de verdade.
Meu pai me olhou, confuso. "Mas e o Tiago? Pensei que você..."
"Eu ouvi tudo, pai."
Contei a ele sobre a conversa na piscina. Sobre a farsa dos protegidos. Sobre o sacrifício de Tiago. Sobre Sofia.
A expressão de meu pai endureceu. Ele me abraçou forte.
"Eles ousaram magoar a minha filha."
Sua voz era baixa, perigosa.
"Pai", eu disse, minha voz fria como gelo. "Comece o processo para remover os protegidos de suas posições de poder. E corte cada centavo do financiamento ilimitado da Sofia. Agora."
Ele me olhou, vendo a nova determinação em meus olhos.
"Será feito, minha filha. Será feito."
Lembrei-me do dia em que meu pai os trouxe para a fazenda. Sete meninos assustados. Tiago, o mais velho, segurava a mão de uma garotinha pequena, Sofia.
"Eu só vou se ela for também", ele disse ao meu pai.
Meu pai, querendo dar a mim uma família, aceitou. Ele os criou para me apoiar, para me proteger.
E eles, todos eles, protegeram Sofia. De mim. O beijo na fogueira não foi um deslize. Foi a confirmação de um plano. O plano deles.
Agora, eu tinha o meu próprio plano.





