Cicatrizes da Alma: A Virada da Herdeira

Com a decisão tomada, uma estranha calma tomou conta de mim. A dor ainda estava lá, mas agora era combustível.

Lembrei de todas as vezes que Tiago me tratou com frieza, de todas as vezes que os outros me irritaram de propósito. Não era desprezo, era estratégia. E eu, cega de amor, nunca percebi.

"Pai, eles não podem saber que eu sei. Não ainda", eu disse, enquanto ele estava ao telefone, já dando as primeiras ordens.

"Eles vão pagar, Liana. Um por um."

"Eu sei. Mas faremos do meu jeito. Depois do meu casamento com o Bruno, você os remove da casa. Não quero mais conflitos sobre os bens da família. Quero eles fora da minha vida."

Meu pai concordou. Ele me daria tudo o que eu pedisse. Ele sempre deu.

Mais tarde, eu estava descendo as escadas quando dei de cara com Sofia. Ela abriu um sorriso doce, inocente.

"Liana, querida! Ouvi dizer que você não está se sentindo bem. Fiquei tão preocupada."

Ela tentou pegar minha mão. O toque dela me deu nojo.

"Não me toque", eu disse, a voz ríspida.

Puxei meu braço para trás com força. Sofia, sempre a atriz, se desequilibrou. Ela não apenas caiu, ela rolou escada abaixo de forma exagerada, soltando um grito agudo.

"Aaaah!"

Imediatamente, os protegidos apareceram de todos os lados, como se estivessem de guarda.

"Sofia!"

Lucas foi o primeiro a chegar perto dela. Ele me olhou com acusação. "Liana, o que você fez? Como pôde empurrá-la?"

Os outros fizeram coro, cercando Sofia, que chorava nos braços de um deles.

"Eu não fiz nada...", ela soluçou, "Liana só está chateada. Não foi culpa dela, não a culpem."

O vitimismo dela era perfeito. Ela me defendia, sabendo que isso só faria os outros me odiarem mais.

Então, Tiago apareceu.

Ele nem olhou na minha direção. Não pediu nenhuma explicação. Seus olhos foram direto para Sofia, deitada no chão. Ele a pegou no colo com uma delicadeza que nunca usou comigo.

"Vamos para o quarto", ele disse, a voz fria como sempre.

Ele passou por mim como se eu fosse invisível e subiu as escadas, levando-a. A mensagem era clara. Eu não importava. Minha versão da história não importava.

Eu fiquei ali, parada, observando-os desaparecer no corredor. Eu não sentia mais a necessidade de chorar ou de me justificar. Eu só sentia uma resignação fria. Eles não mereciam minhas explicações. Não mereciam mais nada de mim.

No dia seguinte, todos estavam na beira do rio. Uma atividade em família. Eu fiquei sentada em uma cadeira, afastada, observando.

Tiago estava com Sofia. Ele descascava uma laranja para ela, tirando cada fiapo branco com uma paciência infinita. Algo que ele sempre se recusou a fazer para mim.

"Não sou seu empregado", ele dizia.

Mas para Sofia, ele era.

A cena me trouxe uma lembrança dolorosa. Uma vez, quando éramos adolescentes, eu estava com os sapatos desamarrados e, de brincadeira, pedi para ele amarrar. Ele se recusou. Meu pai, vendo a cena, ficou furioso.

"Tiago! Ajoelhe-se e amarre os sapatos da minha filha. Agora!"

Ele obedeceu. Seu rosto queimava de humilhação enquanto ele se ajoelhava na minha frente. Na época, eu achei que era orgulho ferido.

Agora, vendo-o servir Sofia voluntariamente, com um sorriso suave no rosto, eu entendi. Não era só orgulho. Era ódio. Ele me odiava. E eu era a idiota que nunca viu.

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