Adeus, Pedro: Minha Vida Começa Agora

Quando o meu voo do Brasil para Portugal aterrou, já era de madrugada. O sol nascia no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e rosa, mas eu não sentia nenhum calor.

O meu telemóvel vibrou sem parar. Eram mensagens do meu marido, Pedro.

"Eva, onde estás? O teu pai não está bem. Ele precisa de ti."

"Porque não atendes o telefone? Ele está a perguntar por ti."

"Eva, volta para casa. Agora."

O meu pai. O homem que me expulsou de casa há cinco anos porque eu insisti em casar com o Pedro, o homem que ele considerava um aproveitador sem valor.

Agora, ele estava a morrer e queria ver-me.

A ironia da situação era pesada.

Desliguei o modo de avião e liguei diretamente para a minha irmã mais nova, Sofia. Ela atendeu ao primeiro toque, a sua voz soava cansada e cheia de alívio.

"Eva! Graças a Deus. O pai... ele está mesmo mal. Os médicos disseram que são as últimas horas."

"Estou em Lisboa. Apanhei o primeiro voo que consegui," respondi, a minha voz rouca pela falta de sono.

"Vem rápido. Ele não para de chamar o teu nome."

Enquanto o táxi me levava para o hospital, as memórias voltaram. A discussão final, as palavras duras do meu pai, a forma como o Pedro me abraçou e prometeu que construiríamos uma vida melhor juntos, longe da desaprovação dele.

Durante cinco anos, o Pedro foi o meu mundo. Ele apoiou-me, cuidou de mim. Pelo menos, era isso que eu pensava.

"Vamos divorciar-nos," disse eu ao Pedro ao telefone, na noite anterior, do outro lado do Atlântico, depois de descobrir a verdade.

Ele ficou em silêncio por um momento, e depois a sua voz calma, a voz que eu tanto amava, tornou-se fria e cortante.

"Estás a brincar? Por causa de uma pequena discussão? Eva, não sejas infantil. O teu pai está a morrer, e é com isso que te preocupas?"

"Não foi uma 'pequena discussão', Pedro. Tu hipotecaste a nossa casa. A casa que os meus avós me deixaram. Para investir num negócio falhado com a tua ex-namorada."

A sua paciência esgotou-se.

"Eu precisava do dinheiro! Ia ser um grande sucesso, teríamos recuperado tudo em dobro! A Clara sabe o que faz! Tu nunca entendes nada de negócios, só sabes gastar o dinheiro que herdas!"

A Clara. A sua ex-namorada. A mulher que ele jurou que era apenas uma amiga, uma parceira de negócios.

"Então e eu, Pedro? E o nosso futuro? Tu nem sequer me consultaste."

"Para quê? Para me dizeres 'não'? Eva, para de ser tão egoísta! O teu pai está no seu leito de morte e tu estás a criar um drama por causa de dinheiro. Dinheiro que eu ia recuperar! Tens de estabelecer as tuas prioridades!"

Com isso, ele desligou.

Tentei ligar de volta, mas a chamada ia diretamente para o voicemail. Ele tinha-me bloqueado.

O táxi parou em frente ao hospital. Respirei fundo. Eu não tinha apenas perdido a minha casa. Tinha perdido o homem que amava e a vida que pensei ter construído.

O meu pai tinha razão. O tempo todo, ele tinha razão sobre o Pedro. E agora, eu estava a voltar para casa, derrotada, para me despedir do homem que tentei desafiar durante tanto tempo.

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