Adeus, Pedro: Minha Vida Começa Agora

Entrei no quarto do hospital e o cheiro a antissético invadiu-me as narinas. O meu pai estava deitado na cama, pálido e frágil, ligado a várias máquinas que apitavam ritmicamente. A sua respiração era superficial.

A minha irmã, Sofia, estava sentada ao lado dele, a segurar-lhe a mão. Os seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar. Quando me viu, levantou-se e abraçou-me com força.

"Ele esteve à tua espera," sussurrou ela.

Aproximei-me da cama. O meu pai abriu os olhos lentamente. Eram os mesmos olhos azuis penetrantes que eu lembrava, mas agora estavam turvos de dor e cansaço.

"Eva..." a sua voz era um murmúrio fraco. "Tu vieste."

"Eu estou aqui, pai." As palavras saíram com dificuldade. As lágrimas que eu estava a segurar começaram a cair.

Ele tentou levantar a mão, e eu peguei nela. Estava fria.

"Onde... onde está o teu marido?" ele perguntou, com esforço.

Engoli em seco. A última coisa que queria era perturbar os seus momentos finais com os meus problemas.

"Ele... ele não pôde vir. Tinha trabalho."

O meu pai olhou para mim, e por um instante, vi um brilho da sua antiga perspicácia. Ele sempre conseguia ver através das minhas mentiras.

"Ele tratou-te bem?"

Assenti, incapaz de falar. A mentira pesava na minha língua.

De repente, a porta do quarto abriu-se com um estrondo.

O Pedro estava ali, ofegante, com o cabelo despenteado. Os seus olhos encontraram os meus, cheios de uma fúria contida.

"Eva! Que raio estás a fazer? Desapareces e não dizes nada a ninguém?"

Ele nem sequer olhou para o meu pai. A sua atenção estava toda em mim.

"Eu disse-te que vinha ver o meu pai," respondi, a minha voz a tremer de raiva e humilhação.

"E o divórcio? Era a sério? Vais deitar fora cinco anos de casamento por causa de um erro? Um erro que eu estava a tentar consertar!"

"Um erro?" A minha voz subiu. "Tu arruinaste-nos, Pedro! E mentiste-me!"

"Parem..." A voz do meu pai era fraca, mas cortou a nossa discussão.

O Pedro finalmente pareceu reparar no homem na cama. O seu rosto mudou, adotando uma máscara de falsa preocupação.

"Senhor Gomes, peço desculpa. Não queria incomodar. A Eva e eu tivemos um pequeno desentendimento, é tudo."

Ele aproximou-se da cama, tentando parecer o genro dedicado. "Como se sente?"

O meu pai ignorou-o. Os seus olhos estavam fixos em mim.

"Ele mentiu-te," disse o meu pai, não como uma pergunta, mas como uma afirmação. "Sobre o quê?"

As lágrimas corriam livremente pelo meu rosto agora. Eu não conseguia mais fingir.

"Ele hipotecou a casa. A casa da avó. Para dar o dinheiro à ex-namorada dele."

Um silêncio pesado encheu o quarto, quebrado apenas pelo som das máquinas. O rosto do Pedro ficou pálido.

O meu pai fechou os olhos por um momento. Quando os abriu novamente, a sua voz, embora fraca, tinha um fio de aço.

"Fora."

O Pedro olhou para ele, confuso. "Desculpe?"

"Eu disse, fora da minha vista," repetiu o meu pai, a sua respiração a ficar mais agitada. "Sai do quarto da minha filha."

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