A Verdade Por Trás do Arranhão do Gato

Quando recebi a chamada do hospital, estava a fazer as malas para a nossa viagem de aniversário de casamento para os Açores.

O meu marido, Pedro, estava no banho, a cantarolar uma melodia desafinada.

O médico do outro lado da linha tinha uma voz grave e cansada.

"Senhora Eva Costa? O seu pai, o senhor Afonso, sofreu um ataque cardíaco. Está em estado crítico na UCI."

O meu telemóvel caiu da minha mão, batendo com um som surdo no tapete.

O meu mundo parou.

Peguei no telemóvel, as minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia marcar o número do Pedro. A chamada foi para o voicemail.

Gritei o nome dele, a minha voz a falhar.

"Pedro! O meu pai! Ele está no hospital!"

A porta da casa de banho abriu-se e ele saiu, com uma toalha à volta da cintura e o cabelo a pingar. A sua expressão era de pura irritação.

"O que foi, Eva? Não vês que estou a tomar banho? Que gritaria é essa?"

"O meu pai," consegui dizer, as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. "Ele teve um ataque cardíaco. Precisamos de ir para o hospital. Agora."

Pedro suspirou, um som longo e exasperado, como se eu lhe tivesse pedido o maior dos favores.

"Outra vez? O teu pai não pode ter um drama sem ser no pior momento possível? Sabes há quanto tempo planeamos esta viagem?"

Ele pegou no seu próprio telemóvel, ignorando completamente o meu pânico.

"Espera, a Sofia está a ligar-me."

Sofia. A sua "melhor amiga" de infância, a mulher que vivia no nosso prédio, a mulher que parecia precisar sempre de alguma coisa do meu marido.

Ele atendeu a chamada com um sorriso que não me dirigia há meses.

"Olá, Fifi. O que se passa? Estás bem?"

A voz dela, aguda e chorosa, era audível mesmo à distância.

"Pedrinho, o meu gato, o Mimo, subiu a uma árvore e não consegue descer! Estou tão preocupada, ele está a miar há horas e os bombeiros disseram que não é uma emergência!"

Pedro olhou para mim, depois para a mala meio feita na cama, e a sua decisão foi instantânea.

"Não te preocupes, Fifi. Estou a ir para aí. Não saias daí."

Ele desligou e começou a vestir-se rapidamente, não com as roupas de viagem, mas com calças de ganga e uma t-shirt.

"Pedro, não podes estar a falar a sério," eu disse, incrédula. "O meu pai está a morrer."

"O teu pai está no hospital, com médicos," ele respondeu, sem sequer olhar para mim. "A Sofia está sozinha e em pânico. O gato dela pode cair a qualquer momento. É diferente."

"Diferente? Um gato é mais importante que o meu pai?"

"Não sejas dramática, Eva," ele retorcou, a sua voz fria como gelo. "Eu vou lá, resolvo a situação e depois falamos sobre o teu pai. Podes ir à frente. Chama um táxi."

Ele saiu pela porta, deixando-me sozinha no meio do nosso quarto, com os bilhetes de avião para os Açores a fazerem-me troça em cima da cómoda.

A viagem de aniversário. O nosso amor. A nossa vida. Tudo parecia uma mentira.

Naquele momento, enquanto o som dos seus passos se afastava pelo corredor, uma certeza fria apoderou-se de mim.

O nosso casamento tinha acabado.

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