A Verdade Por Trás do Arranhão do Gato

Cheguei ao hospital sozinha, o coração a bater descontroladamente no peito.

A sala de espera da UCI era fria e silenciosa, cheia de pessoas com a mesma expressão de medo que eu devia ter no rosto.

Uma enfermeira aproximou-se.

"Senhora Costa? O seu pai está estabilizado por agora, mas o estado dele é muito grave. O médico quer falar consigo."

O médico explicou a situação com palavras que eu mal conseguia processar. Bloqueio severo. Danos no músculo cardíaco. A necessidade de uma cirurgia de bypass urgente.

"A cirurgia é de alto risco," ele disse, "e muito cara. O seguro dele não cobre a totalidade. Precisamos de um depósito de cinquenta mil euros para prosseguir."

Cinquenta mil euros.

O ar fugiu-me dos pulmões.

Eu e o Pedro tínhamos essa quantia na nossa conta conjunta. Era o nosso fundo de emergência, as nossas poupanças de uma vida.

Sentei-me num canto, peguei no telemóvel e liguei ao Pedro.

Uma, duas, três vezes. A chamada ia sempre para o voicemail.

Enviei-lhe uma mensagem.

"Pedro, o pai precisa de uma cirurgia de urgência. Custa 50.000€. Preciso de transferir o dinheiro da nossa conta. Por favor, atende."

Esperei. Os minutos arrastavam-se como horas.

Finalmente, o telemóvel vibrou. Não era uma chamada, mas uma mensagem de texto.

"Estás louca? 50.000€? Esse dinheiro é para a nossa casa, para o nosso futuro. Não vou gastar as nossas poupanças de uma vida num velho que mal se aguenta em pé."

As palavras dele atingiram-me com a força de um soco.

"O teu pai já viveu a vida dele. Nós estamos a começar a nossa. A Sofia concorda comigo. Diz que é uma loucura."

A Sofia. Claro que a Sofia concordava.

As minhas mãos tremiam de raiva.

"Ele é o meu pai, Pedro! Ele vai morrer!"

A resposta dele foi quase imediata.

"As pessoas morrem, Eva. É a vida. Para de ser egoísta e pensar só em ti. Eu tenho de ir, o Mimo finalmente desceu mas arranhou o braço da Sofia. Tenho de a levar ao centro de saúde para levar uma vacina antitetânica."

Depois disso, silêncio.

Ele não atendeu mais nenhuma chamada. Não respondeu a mais nenhuma mensagem.

Olhei pela janela da sala de espera, para a cidade a brilhar lá em baixo. Uma cidade cheia de pessoas, e eu nunca me senti tão sozinha.

O meu pai estava a lutar pela vida a poucos metros de mim, e o meu marido, o homem que prometeu amar-me e proteger-me, tinha-me abandonado por causa de um gato e de um arranhão.

A decisão foi tomada ali mesmo, naquela cadeira de plástico desconfortável, com o cheiro a antisséptico no ar.

Não havia mais nada a salvar. O divórcio não era uma possibilidade, era uma necessidade.

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