Ponto de Vista de Alice Tavares:
A palavra "sim" pairou no ar estéril do meu quarto de hospital, uma promessa silenciosa. Desliguei a chamada com Ciro e coloquei o telefone de volta na mesa de cabeceira com cuidado, meus movimentos lentos e deliberados. Uma calma estranha se instalou sobre mim. A tempestade dentro de mim não havia passado; apenas encontrou seu olho.
Eu tinha que interpretar o papel. A vítima quebrada e de luto. Fechei os olhos no momento em que a porta rangeu ao se abrir.
"Alice?" A voz de Caio era uma carícia suave. Senti o colchão afundar quando ele se sentou, seu cheiro familiar de sândalo e perfume caro agora revirando meu estômago. Ele acariciou meu cabelo, seu toque um eco fantasmagórico de um amor que agora era uma mentira. "Você está acordada?"
Eu não me mexi. Não suportava olhar para ele, ver a falsa preocupação em seus olhos.
"Ela já passou por tanta coisa", Douglas murmurou da porta. "Deixe-a descansar."
Seus passos se afastaram, me deixando sozinha com o zumbido das máquinas e o peso da traição deles. As semanas seguintes foram um borrão de falsa simpatia. Douglas me trouxe flores, suas cores vibrantes uma zombaria da minha existência cinzenta. Caio lia para mim meus livros favoritos, sua voz um bálsamo calmante em uma ferida que ele mesmo infligiu. Eles eram perfeitos, dedicados e absolutamente repulsivos.
O dia da minha alta foi um espetáculo midiático. Douglas, sempre o herdeiro carismático, havia providenciado transporte particular, mas os paparazzi esperavam como abutres. Enquanto ele me levantava cuidadosamente da cadeira de rodas para o banco de trás de uma SUV preta, os flashes explodiram.
"Não olhe, Alice", ele murmurou, protegendo meu rosto com seu corpo. "Eu te protejo."
A ironia era uma dor física no meu peito.
Caio sentou-se ao meu lado, o braço protetoramente em volta dos meus ombros. "Vamos te levar pra casa. Você estará segura lá."
Segura. Eu quase engasguei.
Em casa, nada havia mudado, e ainda assim tudo era diferente. O grande hall de entrada da nossa mansão no Morumbi parecia um museu de uma vida que eu não vivia mais. Minha mãe, uma mulher mais preocupada com o status social do que com o bem-estar da filha, me cumprimentou com uma série de beijos no ar e olhares preocupados para a bolsa do cateter que aparecia sob meu cobertor.
"Oh, querida", ela suspirou, "teremos que encontrar uma maneira de tornar isso... mais discreto."
Douglas me carregou pela escadaria imponente até meu quarto, seus movimentos praticados e gentis. Ele me deitou na cama com o cuidado que se daria a uma boneca de porcelana.
"Pronto", disse ele, a voz embargada de emoção. "Você está em casa."
Eu não senti nada. O amor e a culpa que eles derramavam sobre mim eram como chuva em uma pedra. Eu estava entorpecida, uma versão oca de mim mesma, esperando. Esperando pelo sinal de Ciro.
Alguns dias depois, Caio insistiu em um passeio. "Só um pouco de ar fresco", ele implorou. "Podemos ir à cafeteria perto do parque, aquela que você ama."
Aquela onde ele me disse que me amava pela primeira vez. O pensamento era nauseante.
O passeio — ou melhor, o rolar — foi um exercício de humilhação. As pessoas olhavam. As crianças apontavam. Eu podia sentir a pena e a curiosidade mórbida delas como um toque físico. O silvo e o clique sutis da válvula do cateter pareciam um grito na tarde tranquila.
Uma mulher com um carrinho de bebê olhava abertamente, os olhos fixos no tubo que descia pela minha perna.
"O que você está olhando?" Douglas rosnou, parando na frente da minha cadeira de rodas, o rosto uma máscara de fúria protetora.
"Está tudo bem, Doug", disse Caio, colocando uma mão calmante em seu braço antes de se virar para mim, os olhos suaves com simpatia fingida. "Não ligue pra eles, Alice. Eles não importam."
Ele apertou minha mão, mas seu toque parecia uma aranha rastejando na minha pele. Não consegui parar o tremor que percorreu meu corpo, um calafrio violento de pura, inalterada raiva e luto. Eles viram isso como um sintoma do meu trauma. Mal sabiam eles que era um sintoma do meu ódio. Eles eram os arquitetos da minha prisão, e agora fingiam ser meus guardas, meus protetores.
Douglas sugeriu que ele e Caio fossem buscar cafés para nós, me deixando na entrada do parque. "Voltamos já", ele prometeu.
Eles se afastaram alguns metros, amontoados perto de uma barraca de cachorro-quente, de costas para mim. Suas vozes eram baixas, mas o vento trouxe suas palavras até meu único ouvido bom.
"Não é o suficiente", disse Douglas, a voz afiada. "As pessoas ainda estão falando. A narrativa da 'vítima trágica' está ficando velha. Estão começando a fazer perguntas sobre os rivais de negócios que mencionei. Precisamos acabar com isso de vez."
Meu sangue gelou.
"O que você está sugerindo?" perguntou Caio, o tom cauteloso.
"Precisamos de outra coisa", disse Douglas. "Algo que a torne... menos simpática. Algo que faça as pessoas se voltarem contra ela." Ele fez uma pausa. "Pedi ao meu detetive particular para desenterrar alguma sujeira. Um dos rapazes do coro do show dela... eles eram próximos. Podemos inventar uma história. Um caso sórdido. Vazar algumas fotos adulteradas, algumas mensagens de texto fabricadas. 'O Escândalo Sexual Secreto da Diva da Broadway.' Isso a pinta como imprudente, promíscua. Explica o 'assalto' sob uma nova luz. Talvez tenha sido uma briga de amantes, um negócio que deu errado. Qualquer coisa para tirar o foco de nós."
O mundo girou em seu eixo. Não bastava terem quebrado meu corpo. Agora eles iriam destruir sistematicamente meu nome, meu último resquício de dignidade.
Uma onda de náusea e pânico me invadiu. Eu tinha que fugir. Tentei desajeitadamente girar as rodas da minha cadeira, tentando me virar, fugir. Minhas mãos estavam escorregadias de suor. A cadeira não se movia. Estava presa.
Um soluço escapou dos meus lábios. Empurrei com mais força, uma energia frenética e desesperada surgindo através de mim. A cadeira deu um solavanco para frente, girando de lado, e eu virei, caindo na calçada com um baque surdo. Minha cabeça bateu no concreto.
E então o caos explodiu.
"Lá está ela!" gritou uma voz.
De repente, eu estava cercada. Uma muralha de corpos, câmeras piscando como fogo de metralhadora. Repórteres, seus rostos predatórios, enfiavam microfones na minha cara.
"Srta. Tavares, é verdade que você estava tendo um caso com um membro do elenco?"
"Foi um negócio de drogas que deu errado que levou ao seu ataque?"
"Os rumores sobre seu estilo de vida promíscuo são verdadeiros?"
As perguntas eram uma barragem de sujeira, cada uma uma pedra atirada em meu espírito já quebrado. Tentei cobrir o rosto, mas uma mão agarrou meu braço, puxando-o para longe.
Uma mulher com olhos selvagens e uma camiseta "Time Isabela" rompeu o cordão de jornalistas. Ela parecia uma fã enlouquecida. "Sua vadia!" ela gritou, o rosto contorcido de ódio. "Você tentou arruinar a carreira da Isabela! Você merece isso!"
Suas unhas arranharam meu rosto, tirando sangue. Outros avançaram, uma multidão frenética. Meu cobertor foi arrancado. Minha blusa foi rasgada, expondo a pele pálida do meu ombro e a parte de cima do meu sutiã cirúrgico. A bolsa do cateter, minha vergonha secreta, foi puxada de sua bolsa escondida, o tubo de plástico captando a luz, o líquido amarelado dentro balançando para todo o mundo ver.
Um suspiro coletivo percorreu a multidão, seguido por murmúrios de nojo. A pena se foi, substituída pela repulsa. Eu não era mais uma bailarina trágica; eu era uma aberração. Uma coisa quebrada e manchada.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, misturando-se com o sangue, ardendo nos arranhões frescos. O sal queimava, uma manifestação física da vergonha avassaladora.
"Alice!"
Douglas e Caio estavam subitamente ali, abrindo caminho pela multidão como anjos vingadores. Douglas jogou seu paletó sobre mim, o rosto uma máscara de fúria justa. Caio se ajoelhou ao meu lado, a voz tremendo com o que parecia ser um horror genuíno. "Oh, meu Deus, Alice... você está bem?"
Ele tentou me pegar em seus braços, me proteger dos olhos curiosos e das câmeras piscando.
Mas quando olhei para seus rostos, para seu choque e preocupação perfeitamente encenados, eu vi. O brilho de cálculo nos olhos de Douglas. A tensão sutil e aliviada na mandíbula de Caio.
Isso não foi uma emboscada aleatória. Este era o plano. Este era o "algo mais" que eles haviam arranjado. A fã raivosa, os repórteres, o desnudamento público da minha dignidade — tudo fazia parte de seu grande plano.
Eles queriam me apagar. Não apenas a dançarina, mas a pessoa. Transformar minha tragédia em uma manchete de tabloide, um conto de advertência sórdido, para que a doce e frágil Isabela pudesse renascer das minhas cinzas, pura e imaculada.
Olhei para Caio, meu noivo, o homem que deveria me proteger, agora me embalando em seus braços para o benefício das câmeras.
Deixei minha cabeça cair contra seu peito, um soluço quebrado escapando dos meus lábios. Foi a performance mais convincente da minha vida.
Vocês venceram, pensei, uma certeza fria e dura se solidificando em meu coração. Vocês realmente, totalmente venceram.
Por enquanto.





