— Eu derrubei sem querer. — Carina acrescentou de imediato, tentando evitar mais conflitos.
Ryan estendeu os braços e retirou Giulio da cadeira, entregando-o à cozinheira. Depois, agarrou o punho de Carina com firmeza e a levou até a pia.
— Ryan, não… — ela tentou protestar, mas a mão dele era implacável.
Ele abriu a torneira, enfiou a mão dela sob a água corrente. A pressão aumentou o ardor, arrancando-lhe um gemido baixo.
— Sempre tão desastrada — resmungou, segurando-lhe o punho com força.
A água escorria, levando consigo o sangue e pequenos estilhaços de vidro. O sabão caiu sobre o ferimento, provocando uma ardência mais intensa. Ela cerrou os olhos, suportando a dor em silêncio.
A mente evocou a lembrança de como Giovanna Harrison sofreu naquela casa. Recentemente, soube que Giovanna estava grávida novamente, vivendo uma vida que ela jamais teria. O pensamento a feriu mais do que o corte.
— Vai passar. — A voz dele a puxou de volta.
Carina abriu os olhos e por um instante, e então, ela se perguntou se ainda existia um resquício de empatia em Ryan?
Mas o momento passou rápido. Ele fechou a torneira, pegou um pano limpo da bancada e envolveu a sua mão.
— Vá para o seu quarto e cuide disso. — O comando soou frio, definitivo. — Coloque um curativo e fique por lá.
Giulio se soltou dos braços de Carmela e correu até Carina.
— Eu quero ficar com a mamãe.
Ryan o fitou, hesitou por um breve momento. Então, assentiu com um aceno curto.
— Levem comida para eles no quarto. — Desta vez, dirigiu-se aos empregados.
Carina apertou o filho contra o corpo, tentando esconder a dor na mão latejante.
A porta rangeu novamente. Verônica apareceu, sorridente, com o vestido vermelho oscilando em seu corpo esguio.
— O seu pai exige sua presença para tratar de um assunto importante, amore mio. — Sua voz era melíflua, mas o olhar que lançou a Carina estava repleto de desprezo.
Ela ofereceu o braço ao noivo. Ryan aceitou, erguendo-se ao lado dela. Antes de sair, voltou os olhos para Carina e Giulio.
Então se virou e partiu com Verônica, deixando a ex-esposa e o filho para trás.
— Devia ter contado ao patrão! — Carmela cochichou.
— Não adianta. — Após falar, Carina ajeitou o filho no colo e suspirou.
Era inútil falar alguma coisa, pois já sabia como aquela mulher manipulava o seu ex-marido.
Desde que acordou do coma, Carina sabia que o pai de seu filho estava noivo de outra mulher. Tinha voltado para a villa dos Gambino só para ver o filho e acabou ficando, já que Ryan se recusava a deixar a ex levar o garoto.
Não houve um só dia em que o ex-marido não reclamasse do fato dela ter ido embora sem falar que estava grávida. Se não fosse por Eros Velentzas, nunca saberia onde a ex estava e muito menos que tinha um filho.
— Vá cuidar disso, querida… já levo a refeição de vocês… — com doçura, Carmela falou.
— Grazie! — Depois que agradeceu, a jovem mãe rumou para a saída.
A caminho do quarto, Carina abraçava o menino.
— Está doendo, mamãe?
— Não! — Mentiu.
— Odeio aquela bruxa. — Giulio falou.
— Shiu! — Ao fazer um muxoxo, Carina olhou para os lados, temendo que algum funcionário tivesse ouvido. — Vamos conversar quando chegar no quarto.
Mãe e filho chegaram ao segundo piso. Ao cruzar a porta, Carina se trancou lá dentro. Ela o segurava nos braços com cuidado, sentindo o pequeno corpo tremer levemente.
Ligando a televisão, deixou que o filho se distraísse com o desenho dos jovens Titãs e então, foi ao banheiro pegar a caixa com antissépticos e curativos.
O corte ainda sangrava, e ela limpava a ferida com movimentos meticulosos. Cada toque da gaze no ferimento parecia arrancar dela um fragmento de força, mas ela se mantinha firme; era o mínimo que podia fazer pelo filho.
Seus pensamentos corriam em círculos, cada vez mais acelerados. Como sair dali sem provocar a ira de Ryan? Como proteger Giulio sem se expor? Cada plano que surgia em sua mente parecia ser imediatamente destruído pela realidade à sua volta. As paredes do quarto davam-lhe apenas a ilusão de segurança. Ela respirou fundo e olhou para o pequeno, observando os fios finos de cabelo que caiam sobre a testa, o rosto ainda tão infantil, mas já marcado pela tensão de uma casa que jamais deveria ser seu lar.
Ela posicionou cuidadosamente o curativo sobre o corte, verificando se não havia nenhum pedacinho de vidro, e então embalou o filho nos braços, permitindo-se por um instante a sensação mínima de normalidade, apenas o calor do corpo pequeno contra o seu enquanto assistia o desenho.
Quase meia hora depois, as batidas na porta a deixaram em alerta. Carina não tinha certeza se era algum funcionário trazendo o jantar ou a megera da Verônica. “Talvez seja o Ryan”, cogitou em seus pensamentos
— Tem alguém batendo na porta, mamãe.
— Fique aqui, — deixou o filho sobre a cama. — Deve ser a nossa comida… — sorriu para não preocupar o filho.





