
Capítulo 1 de A Refém do Capo - Tudo por uma família "feliz"
O salão de jantar estava impecável naquela noite. A mesa longa, enfeitada com castiçais de prata e taças de cristal, refletia a luz amarelada dos lustres. Risos baixos e conversas em italiano ecoavam pelo ambiente, mas para Carina, cada som parecia mais distante que o outro.
Ela se manteve de pé, um pouco afastada, com Giulio no colo, como sempre fazia quando sabia que a noiva de Ryan estaria presente. O menino escondia o rosto no pescoço dela, incomodado com o burburinho, com o olhar de estranhos que o tratavam como um troféu de família. Ela o embalava, sussurrando baixinho ao ouvido dele, tentando passar uma calma que nem ela mesma sentia.
— É a prisioneira de sempre... — escutou uma voz feminina sussurrar em uma ponta da mesa.
Mesmo diante da humilhação, Carina fingiu que não ouviu. Era assim que ela fazia todos os dias para evitar o estresse.
Ao lado dela, a nova estrela da casa ocupava seu lugar com a pompa de quem já se considerava rainha. Aquela mulher, que um dia foi amante de Ryan Gambino, se tornou a noiva enquanto Carina estava em coma. Verônica Martini era alta, esguia, de cabelo loiro puxado para o dourado, com feições angulosas e frias. Filha de um dos aliados da família Gambino, vinda direto de Lombardia com a missão de selar a nova geração dos Gambino com um casamento de fachada e poder.
— Que horror! A ex dele ainda circula pela casa… — comentou Verônica, com a voz bem alta de propósito, fingindo rir com uma das primas. — Certas mulheres não têm vergonha nenhuma.
Diante do constrangimento, Carina foi com Giulio até a cozinha. Era o único lugar onde conseguia respirar. Ali, entre o cheiro de alho, azeite e massa fresca, encontrava um pouco de dignidade.
— Venha, querida... Senta ali — disse Carmela, a cozinheira.
Carmela era uma senhora baixinha, de olhos bondosos e mãos calejadas de tanto amassar pão e preparar molhos.
Giulio foi acomodado numa das cadeiras perto da bancada. Carmela logo trouxe um prato de macarrão com molho de tomate e uma fatia de pão rústico.
— Não se preocupe com eles... — sussurrou a cozinheira, ao servir um copo de água para Carina. — Deus vê tudo.
Ela sorriu de leve, com lágrimas ardendo nos olhos.
Naquela noite, o destino parecia disposto a lhe roubar até isso. Poucos minutos depois, a porta da cozinha se abriu com força. Verônica entrou, com o salto alto batendo no piso de mármore.
— Então, é aqui que você se esconde ao invés de ajudar servir a mesa? — A voz dela cortou o ambiente.
Os outros empregados pararam o que estavam fazendo, mas nenhum teve coragem de intervir.
Carina gelou, ficando de pé de forma automática.
— Eu só vim jantar com o meu filho... — ela murmurou.
— Seu filho? — Verônica riu, olhando para Giulio como se ele fosse um inseto. — O bastardo, você quis dizer.
A ofensa fez seu sangue ferver. Carina sentiu o corpo inteiro estremecer, mas antes que pudesse reagir, Verônica caminhou até a bancada, pegou o copo de vidro da mão dela com desprezo e, com um movimento rápido, o deixou cair ao chão.
O estilhaço foi imediato. O som do vidro quebrado pareceu ecoar por todos os cantos da cozinha.
— Limpe isso. — A voz de esganiçada de Verônica mandou. — Agora.
Carina permaneceu estagnada. Sentiu todos os olhos voltados para ela. Os cozinheiros, os ajudantes, até mesmo Carmela... Ninguém ousou mexer um músculo.
Com o coração aos pulos, ela se agachou, começando a juntar os cacos. As pontas afiadas cortaram a pele de sua palma, e o sangue logo escorreu por entre os dedos.
Do alto da cadeira, o pequeno Giulio começou a chorar.
— Mamãe, não!
Mas ela engoliu a vergonha, o orgulho, a raiva e continuou limpando.
Quando terminou, levantou-se com as mãos sujas de sangue e lágrimas nos olhos. Carmela se aproximou para lhe oferecer um pano limpo, mas antes que pudesse aceitá-lo, Verônica já tinha saído, com o salto ecoando pelo corredor.
— Use isso para estancar o sangue, — A cozinheira insistiu ao tentar lhe dar o pano.
Carina respirou fundo, envolveu o tecido na mão e abraçou Giulio com força.
— Um dia, isso vai acabar! — Com a voz embargada, a mãe sussurrou contra os cabelos do filho. — Eu te prometo, meu amorzinho.
Inesperadamente, um homem parou na porta.
— Deseja algo, senhor? — A cozinheira perguntou com intenção de distraí-lo, mas foi em vão.
Ryan Gambino entrou com o mesmo ar despretensioso. Usava terno italiano perfeitamente alinhado ao corpo, gravata estreita, a barba bem feita, deixando apenas um sombreado que reforçava o queixo firme. A cada passo, a presença de Ryan parecia preencher o ambiente. Os olhos dele focaram direto no pano sujo de sangue envolto na mão de sua ex-mulher, que tentava acalmar o filho.
— O que aconteceu aqui? — Ryan inquiriu, olhando de Carina para os funcionários.
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