A memória da minha vida passada era um pesadelo que se repetia em minha mente, uma ferida que nunca cicatrizava. Lembro-me do dia do meu casamento, que deveria ser o mais feliz da minha vida, mas que se transformou no meu fim. Naquele dia, descobri a mais cruel das traições. Minha prima, Rafaela, a quem eu sempre considerei uma irmã, roubou tudo de mim. O vestido de noiva, que confiei a ela para fazer os últimos ajustes, foi alterado para servir perfeitamente em seu corpo. Ela o vestiu, radiante, enquanto eu era deixada de lado, em farrapos.
Quando confrontei o homem que chamei de pai por toda a vida, Sr. Carlos, ele me olhou com um desprezo gelado. Suas palavras foram como lâminas, cortando os últimos laços que nos uniam. Ele revelou que eu não era sua filha biológica, que eu era apenas uma peça em seu jogo de aparências. E que, após o casamento de Rafaela com o meu noivo, Lucas, eu seria deserdada, jogada fora como lixo.
Naquela vida, eu chorei, implorei, lutei, mas fui silenciada. Fui trancada no meu quarto enquanto ouvia os sons da festa lá fora, a celebração da minha desgraça. O desespero me consumiu, e meu fim foi solitário e trágico, um sussurro esquecido na opulência daquela casa.
Mas então, algo aconteceu.
Abri os olhos.
A luz do sol da tarde entrava pela janela do meu quarto, o mesmo quarto onde minha vida passada terminou. Meu coração batia descontroladamente no peito, um tambor de guerra anunciando uma segunda chance. Eu estava viva. Eu tinha voltado.
O som de risadas e elogios veio do corredor. Uma voz familiar, melosa e falsa, cortou o ar.
"Rafaela, você está deslumbrante! Esse vestido parece que foi feito para você!"
Era a voz de uma das empregadas.
Meu corpo gelou. Eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Era a véspera do meu casamento. O ponto de virada. O momento em que tudo desmoronou.
Levantei-me da cama, minhas pernas ainda trêmulas pela onda de memórias e pela adrenalina da ressurreição. Caminhei até a porta e a abri lentamente.
Lá estava ela. Rafaela. No meio do salão, vestindo o meu vestido de noiva. O tecido branco e delicado, que eu mesma desenhei, abraçava suas curvas como uma segunda pele. Seu cabelo estava preso em um penteado elegante, e um sorriso triunfante enfeitava seus lábios.
As empregadas a rodeavam como abelhas em volta de uma flor, zumbindo elogios vazios.
"Senhorita Rafaela, o Sr. Lucas vai ficar sem fôlego quando te ver!"
"Com certeza! Você é muito mais bonita que a Senhorita Tônia."
"O vestido ficou muito melhor em você."
Rafaela riu, um som que me causou náuseas. Ela girou lentamente, admirando seu reflexo no grande espelho da parede.
"Vocês acham mesmo?", ela perguntou, fingindo modéstia. "Eu estava com medo de não ficar bom. Tônia tem um gosto tão... simples."
A raiva borbulhou dentro de mim, quente e sufocante. Na minha vida passada, eu fiquei paralisada pela dor e pela incredulidade. Eu permiti que eles me destruíssem.
Mas não desta vez.
Desta vez, eu não seria a vítima. Eu não choraria. Eu não imploraria.
Fechei os punhos com força, as unhas cravando na palma das minhas mãos. O leve ardor me trouxe de volta à realidade, focando minha mente. Eles queriam roubar minha vida, meu futuro, minha dignidade. Eles me trataram como um nada.
Eles iriam pagar.
Cada um deles.
Um sorriso frio se formou em meus lábios. A Tônia ingênua e de bom coração estava morta. Em seu lugar, nasceu alguém forjada pela traição e alimentada por um desejo avassalador de justiça. Eu não iria apenas sobreviver. Eu iria lutar. E eu iria vencer.





