A Noiva Que Não Te Esperou

Sofia sentia o cheiro familiar do mar e do protetor solar de Leo misturado com o perfume caro dele.

Estavam no carro dele, estacionado numa rua discreta com vista para a praia de Carcavelos, um dos seus refúgios secretos.

Cinco anos.

Cinco anos de encontros assim, escondidos.

Ela encostou a cabeça no ombro dele, sentindo o tecido macio da camisa dele contra a sua bochecha.

"Às vezes cansa, sabes?" ela sussurrou, mais para si mesma do que para ele.

Leo afastou-se um pouco, o suficiente para olhar para ela, a testa franzida.

"Cansa o quê? Estar comigo?"

A sua voz tinha um tom possessivo que ela conhecia bem.

Sofia forçou um sorriso.

"Não, parvo. Cansa esconder. Os meus pais já me perguntam quando é que vou assentar, arranjar alguém a sério."

Ela viu uma sombra passar pelos olhos dele, mas desapareceu tão rápido como surgiu.

Leo puxou-a para mais perto, beijando-lhe o cabelo.

"Nós somos a sério, meu amor. Mais a sério do que imaginas."

Sofia queria acreditar. Precisava acreditar.

"Mas quando é que vamos poder ser... normais? Um casal normal?"

Ele suspirou, um som que ela também já conhecia.

"Sofia, tu sabes como é. A minha carreira, a minha família... eles não iam entender agora. Mas vai acontecer. Prometo."

Ele beijou-a, um beijo longo e profundo que lhe roubou o fôlego e as dúvidas, pelo menos por agora.

"Vamos ter a nossa casa no Alentejo, lembra-te? Longe de tudo e de todos."

Ela aninhou-se nele, agarrando-se àquela promessa como a um bote salva-vidas.

A festa na Comporta era o tipo de evento que a família de Leo adorava.

Casas de praia luxuosas, música ambiente, pessoas bonitas e bronzeadas a rir com copos de vinho branco na mão.

Sofia sentia-se um peixe fora de água, mas Beatriz, a irmã de Leo e sua melhor amiga, insistira que ela viesse.

Leo estava algures com os amigos surfistas, provavelmente a gabar-se das últimas ondas.

Sofia precisava de ir à casa de banho e, ao passar por um grupo de rapazes perto da piscina, ouviu a voz de Leo.

Parou instintivamente, escondida por um vaso de plantas grande.

"Então, Leo, e a Sofia? A coisa está a ficar séria?" perguntou um deles.

Leo riu, um som que fez o estômago de Sofia revirar.

"A Sofia? Ela é incrível, uma experiência fantástica. Estou a aprender muito com ela."

Outro amigo assobiou. "A aprender o quê, safado?"

Mais risos.

"Não, a sério," continuou Leo, "ela é ótima. Mas vocês sabem... a Carol volta de Milão no próximo mês. Tenho que preparar o terreno. A Sofia é tipo... um ensaio geral. Para quando a verdadeira estrela chegar."

O mundo de Sofia parou.

Ensaio geral.

Experiência.

As palavras ecoavam na sua cabeça, cada uma como um golpe.

Ela sentiu o sangue fugir-lhe do rosto.

Recuou devagar, sem fazer barulho, e correu para o mais longe possível daquela conversa, daquela casa, daquela mentira.

Lembrou-se de como se conheceram.

Ela tinha acabado de abrir a sua pequena pastelaria em Alfama, e ele entrou, todo bronzeado e sorridente, pedindo "o doce mais lisboeta" que ela tivesse.

Ele voltou todos os dias durante uma semana.

Depois começou a aparecer à hora de fecho, ajudando-a a arrumar, falando sobre as ondas, sobre os sonhos dele.

Ele era mais novo, cheio de uma energia contagiante.

Ela, vinda de uma desilusão amorosa que a deixara cínica, resistiu.

Mas Leo era persistente.

Ele aparecia em Carcavelos quando ela ia visitar os pais, "por coincidência".

Ele deixava bilhetes no para-brisas do carro dela.

Ele ligava só para ouvir a voz dela.

Até que ela cedeu.

E agora, cinco anos depois, descobria que tudo não passara de um "ensaio".

Ela fora usada.

Os cinco anos mais intensos da sua vida, construídos sobre uma mentira.

A dor era física, apertando-lhe o peito, dificultando a respiração.

Voltou para Lisboa de táxi, sentindo-se doente.

Os pais dela, preocupados com o seu ar abatido nos dias seguintes, voltaram a tocar no assunto do casamento.

Havia um filho de uns amigos, um rapaz sério, arquiteto, Diogo.

Ela lembrava-se vagamente dele de um curso de fotografia que fizera anos antes.

Naquele momento, qualquer coisa parecia melhor do que a realidade que acabara de descobrir.

"Está bem," ela disse aos pais, a voz vazia. "Marquem um jantar."

Se a vida dela era uma farsa, então que fosse uma farsa completa.

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