A Névoa Se Dissipa: O Amor Desperta

Uma dor aguda latejava na minha cabeça, como se mil agulhas estivessem a perfurar o meu cérebro. Tentei abrir os olhos, mas a luz forte fez-me fechá-los novamente.

"Liza, sua ladra! Devolva a sobremesa do meu filho!"

Uma voz estridente cortou o ar, seguida pelo choro alto de uma criança.

Abri os olhos com esforço e vi uma mulher de meia-idade a apontar para mim, com o rosto vermelho de raiva. Ao seu lado, um menino chorava histericamente.

Eu estava confusa. Que sobremesa? Onde é que eu estava?

Memórias fragmentadas inundaram a minha mente. Lembro-me de estar a conduzir, do som ensurdecedor de metal a torcer, da dor excruciante e depois... escuridão.

Mas também me lembro de uma vida de confusão, de ser tratada como uma idiota, de fazer coisas sem sentido e de ver o desapontamento constante no rosto do meu marido.

As duas realidades colidiram, e a minha cabeça doeu ainda mais. Percebi que tinha vivido os últimos três anos num nevoeiro mental, uma consequência do acidente de carro que sofri aos dezassete anos. Agora, de repente, a clareza tinha voltado.

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, um braço forte agarrou-me e puxou-me com força.

"Chega, Liza! Para casa, agora!"

A voz era fria e dura. Era o meu marido, o Capitão William Schultz. O seu rosto bonito estava contraído numa máscara de fúria e vergonha. Ele arrastou-me pela multidão de vizinhos curiosos, ignorando os seus sussurros e olhares de desprezo.

"William, eu não..."

"Cala a boca," ele rosnou, sem me olhar.

Ele arrastou-me para dentro da nossa casa e bateu a porta com força. A casa estava uma bagunça, com pratos sujos na pia, roupas espalhadas pelo chão e um cheiro azedo no ar. Era o reflexo perfeito da minha vida nos últimos três anos.

Ele soltou o meu braço com um empurrão. Olhei para ele, para o homem que eu amava desde a infância, o homem que me prometeu proteger. Os seus olhos, que antes me olhavam com carinho, agora estavam cheios de exaustão e desgosto.

"Não aguento mais isto, Liza," disse ele, com a voz carregada de uma fadiga profunda.

Ele foi até uma gaveta, tirou uns papéis e atirou-os para cima da mesa à minha frente.

"Divórcio."

A palavra atingiu-me como um soco no estômago. Olhei para os papéis e depois para ele, com os olhos a encherem-se de lágrimas.

"Não, William. Por favor," implorei, a minha voz um sussurro rouco. "Eu posso mudar. Eu vou mudar. Dá-me uma chance."

Ele riu, um som amargo e sem alegria. "Mudar? Tu dizes isso sempre. E depois, no dia seguinte, fazes algo ainda mais estúpido. Estou farto de ser a anedota da base por tua causa."

Ele virou-se para sair. Corri até ele, agarrando a sua manga. "Por favor, não me deixes. Eu amo-te."

Ele arrancou o braço do meu aperto. "O teu amor é sufocante e embaraçoso. Já chega."

Ele saiu, batendo a porta atrás de si. Caí de joelhos, as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. Sozinha no meio da confusão, olhei em volta. Esta era a vida que eu tinha criado.

Mas agora, eu estava desperta. A "Liza boba" tinha desaparecido.

Levantei-me, com uma nova determinação a queimar dentro de mim. Fui até à pia e comecei a lavar a loiça. Limpei a cozinha, depois a sala, esfregando cada superfície até brilhar. Dobrei as roupas, arrumei a desarrumação.

Horas mais tarde, a casa estava impecável. Fui tomar um banho, sentindo a água quente lavar a sujidade e a confusão dos últimos três anos. Olhei-me ao espelho. O meu rosto estava mais magro, mas os meus olhos estavam claros e focados. A amnésia tinha levado a minha inteligência, mas agora, ela tinha voltado.

Fui ao meu armário para me vestir, mas todas as minhas roupas estavam sujas ou amarrotadas. A única coisa limpa que encontrei foi uma das camisas brancas de William, pendurada no armário dele. Vesti-a. O tecido era macio contra a minha pele, e o cheiro dele, uma mistura de sabão e algo unicamente masculino, encheu os meus sentidos.

A camisa era grande demais para mim, caindo até meio das minhas coxas. Deixei o meu cabelo húmido solto, caindo em ondas sobre os meus ombros.

A porta da frente abriu-se de repente. William entrou, parecendo exausto. Ele parou abruptamente quando me viu, os seus olhos a percorrerem o meu corpo, da camisa branca às minhas pernas nuas.

Ele engoliu em seco, uma expressão de surpresa e algo mais a passar pelo seu rosto antes de ser substituída pela sua habitual carranca fria.

Capítulos
Personalizar
Próximo Capítulo

Você pode gostar

Logo
Seu guia para os melhores dramas curtos online. Prévias gratuitas, informações completas do elenco e links para plataformas oficiais — tudo em um só lugar.
©2026 PinesDramas Todos os direitos reservados