A Liberdade de Lia

O pesadelo era sempre o mesmo.

Um beco escuro em Coimbra, o cheiro a terra molhada e a álcool barato. Mãos a agarrarem-me, risos cruéis a ecoarem nos meus ouvidos. A dor.

Acordei a suar, o coração a bater descontroladamente no peito.

A primeira coisa que senti foi o frio do metal à volta do meu tornozelo. A corrente estava presa à base de uma cama moderna e minimalista, um contraste gritante com as paredes de pedra da velha quinta.

O meu corpo ainda tremia. As marcas roxas nos meus pulsos eram uma recordação constante de onde eu estava. Prisioneira.

A porta abriu-se sem fazer barulho.

Diogo entrou, um sorriso gentil nos lábios. Trazia um tabuleiro com o pequeno-almoço: pão fresco, fruta e um copo de sumo. O cheiro fez-me o estômago revirar.

"Bom dia, meu amor. Dormiste bem?"

A sua voz era suave, preocupada. Se não fosse pela corrente, qualquer um acreditaria que ele era um namorado atencioso.

Ele pousou o tabuleiro na mesa de cabeceira e sentou-se na beira da cama, a sua mão a afastar uma madeixa de cabelo do meu rosto. Recuei instintivamente.

O seu sorriso vacilou por um segundo.

"Não tenhas medo de mim, Lia. Eu só quero cuidar de ti."

As suas palavras eram veneno doce.

"Porque estás a fazer isto, Diogo?" a minha voz saiu rouca, um sussurro.

Ele suspirou, como se estivesse desapontado com a minha pergunta.

"Porque me deixaste. Porque me humilhaste."

A confusão era um nevoeiro denso na minha mente. A memória do nosso reencontro há duas semanas era um borrão de terror.

Eu estava a trabalhar na restauração dos azulejos de uma capela antiga no Porto. Ele apareceu, charmoso como sempre, o herdeiro do império do Vinho do Porto. Falou do nosso tempo na universidade, de como sentia a minha falta.

Por um momento, acreditei nele. Senti uma ponta daquela antiga felicidade.

Fui estúpida.

Ele convidou-me para jantar. Quando entrei no carro dele, as portas trancaram-se. O sorriso dele desapareceu, substituído por uma máscara de fúria fria.

"Vamos para casa, Lia. Para a nossa casa."

E agora, aqui estava eu.

"Diogo, por favor," implorei, as lágrimas a começarem a escorrer pelo meu rosto. "Deixa-me ir. Eu juro que desapareço. Eu perdoo-te por isto. Só me deixa ir."

Ele olhou para mim, os seus olhos escuros a brilharem com uma intensidade que me assustava.

"Perdoas-me?" ele riu, um som sem alegria. "És tu que precisas do meu perdão. Mas não te preocupes. Eu vou ensinar-te a amar-me outra vez."

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