A Liberdade de Lia

A sua resposta atingiu-me com a força de um soco.

"Nunca!" gritei, a minha voz a quebrar-se. "Eu nunca mais te vou amar!"

A fúria explodiu no rosto de Diogo. Ele levantou-se de um salto, o tabuleiro do pequeno-almoço voou contra a parede, espalhando comida e cacos de loiça pelo chão.

"Tu pertences-me, Lia! Percebes? Em vida ou na morte, serás sempre minha!"

O seu grito ecoou nas paredes de pedra. Ele aproximou-se de mim, o seu corpo tenso de raiva. Encolhi-me na cama, puxando a corrente o mais que podia.

Ele agarrou-me pelos ombros, os seus dedos a cravarem-se na minha pele.

"Tu vais aprender a tua lição," sibilou ele, o seu rosto a centímetros do meu.

O som da porta a abrir-se novamente interrompeu-o.

Uma jovem, com os mesmos olhos escuros e arrogantes de Diogo, entrou no quarto. Era Catarina, a sua irmã mais nova.

Ela olhou para mim com desprezo.

"Diogo, o que é que esta vagabunda ainda está a fazer aqui a gritar? Pensei que já a tinhas posto no seu lugar."

Diogo largou-me, a sua raiva a diminuir ligeiramente na presença da irmã.

"Catarina, não é altura para isso."

"Não é altura?" ela riu-se, um som agudo e desagradável. "Por causa dela, tu estás a sofrer. Ela destruiu-te. Ela merece tudo o que lhe acontecer."

Catarina caminhou até mim. O seu olhar era frio e cruel.

"Tu és a culpada por tudo isto," disse ela, a sua voz baixa e ameaçadora. "Destruíste o meu irmão. E agora, vais pagar."

Antes que eu pudesse reagir, a sua mão voou e esbofeteou-me com força. A minha cabeça estalou para o lado, a bochecha a arder.

A dor, a humilhação, o medo. Tudo se misturou numa onda avassaladora. O mundo à minha volta começou a escurecer.

A última coisa que ouvi foi a voz de Catarina, cheia de ódio.

"Isto é só o começo."

Depois, tudo ficou preto.

Acordei com o cheiro a antisséptico. Estava num quarto de clínica, a luz suave a entrar pela janela. A minha cabeça doía.

Olhei para o lado. Diogo estava a dormir numa poltrona ao lado da minha cama, a sua cabeça encostada para trás, a sua expressão exausta. Por um momento, parecia vulnerável. Quase o mesmo rapaz por quem me apaixonei em Coimbra.

Uma pontada de algo que se assemelhava a pena atravessou-me, mas desapareceu tão depressa como veio. Este homem era o meu carcereiro. O meu monstro.

A porta abriu-se e o meu coração gelou.

Três figuras entraram. Reconheci-os imediatamente.

Nuno e Ricardo, os primos de Diogo. E um terceiro homem, o cúmplice deles.

Os meus agressores.

Eles sorriam, um ar de superioridade nos seus rostos. O pânico subiu pela minha garganta, a sufocar-me.

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