Quando abri os olhos, o cheiro de desinfetante encheu o meu nariz.
A luz fluorescente no teto do hospital era fria e ofuscante.
A minha mãe, Joana, estava deitada na cama ao lado, o rosto pálido como papel, ainda inconsciente da cirurgia de emergência.
O meu marido, Pedro, estava ao telefone no corredor, a voz dele era baixa mas eu conseguia ouvir a raiva contida.
"Eu sei, mãe, eu sei. Ela é sempre assim, a fazer um drama por nada. A Eva está bem, só um arranhão no braço. O problema é o cão dela, o Biscoito, que ficou muito assustado."
Eva era a filha do meu padrasto, a minha meia-irmã.
O meu telemóvel estava na mesinha de cabeceira, o ecrã estilhaçado.
Lembrei-me do acidente de carro, do som de metal a torcer e do meu grito.
Eu estava grávida de nove meses.
Agora, a minha barriga estava vazia.
O bebé, o nosso filho tão esperado, tinha-se ido.
O Pedro entrou no quarto, o rosto dele tenso.
"A minha mãe está preocupada. Ela disse que a Eva não para de chorar."
Eu olhei para ele, a minha voz era um sussurro rouco.
"O nosso filho morreu, Pedro."
Ele desviou o olhar, desconfortável.
"Eu sei, Lúcia. Foi um acidente terrível. Mas não podemos mudar o que aconteceu. Temos de ser fortes."
Ser fortes? Ele não estava lá.
Ele estava a consolar a Eva porque o cão dela estava assustado.
Eu liguei-lhe dezenas de vezes da ambulância, mas ele não atendeu.
O telefone dele estava ocupado. Ele estava a falar com a Eva.
"Eu quero o divórcio," disse eu, a decisão clara e fria na minha mente.
A raiva explodiu no rosto do Pedro, a fachada de calma dele a desmoronar-se.
"Divórcio? Estás a brincar comigo? Depois de tudo o que passámos? Só por causa de um acidente?"
"Não foi só por causa do acidente, Pedro. Foi por tudo. Onde estavas tu quando eu mais precisei de ti?"
"Eu estava a ajudar a minha família! A Eva estava em pânico! O que querias que eu fizesse? Que a deixasse sozinha?"
"E eu? Eu estava a perder o nosso filho. Isso não significa nada para ti?"
As palavras dele foram como um soco no estômago.
"Não sejas dramática, Lúcia. Pessoas sofrem acidentes todos os dias. A Eva é frágil, ela precisa de apoio. Tu és mais forte."
Frágil? A Eva, que passava os fins de semana a fazer escalada e maratonas?
Eu, que acabei de passar por uma cirurgia que me roubou o meu filho, era a forte?
As lágrimas que eu segurei começaram a queimar os meus olhos, mas recusei-me a deixá-las cair.
"Acabou, Pedro. Eu não consigo mais viver assim."
Ele riu, um som amargo e cruel.
"Tu não vais a lado nenhum. Tu amas-me demais para me deixar. E para onde irias? Não tens nada."
Ele virou-se e saiu do quarto, batendo a porta com força.
O som ecoou no silêncio, tão alto como o som do meu coração a partir-se.
Ele tinha razão numa coisa. Eu não tinha para onde ir.
A minha mãe dependia de mim, e agora estávamos as duas presas nesta teia familiar tóxica.
Mas ele estava enganado sobre outra. O amor que eu sentia por ele tinha morrido.
Morreu na beira da estrada, enquanto eu sangrava e chamava por ele em vão.
Morreu quando percebi que o cão da meia-irmã dele era mais importante do que o nosso filho por nascer.
O telemóvel da minha mãe tocou na mesinha de cabeceira.
Era o meu padrasto, Carlos.
A minha mãe mexeu-se, gemendo de dor, e atendeu a chamada, a voz fraca.
"Carlos?"
A voz irritada do meu padrasto explodiu do altifalante, tão alta que todo o quarto ouviu.
"Joana! Que raio se passa com a tua filha? Ela está a tentar destruir a nossa família? Divórcio? Ela enlouqueceu? A Eva está traumatizada por causa dela!"
A minha mãe olhou para mim, os olhos dela cheios de uma dor e resignação que eu conhecia demasiado bem.
Eu tirei o telefone da mão dela e falei, a minha voz surpreendentemente firme.
"A culpa não é da minha mãe. A decisão é minha. E é final."
Desliguei a chamada antes que ele pudesse responder.
O silêncio voltou, mais pesado do que antes.
A minha mãe estendeu a mão e agarrou a minha. A pele dela estava fria.
"Minha filha," ela sussurrou, "o que vamos fazer?"
Eu apertei a mão dela.
"Vamos sair daqui," disse eu. "De uma forma ou de outra."





