Dois dias depois, recebemos alta do hospital.
Pedro não apareceu. Ele enviou um táxi para nos levar para casa.
A "casa" era o apartamento que partilhávamos com o Carlos e a mãe do Pedro, a sogra que me desprezava, Teresa.
Quando entrámos, o ambiente estava pesado.
Teresa estava sentada no sofá, a fazer croché, o rosto dela uma máscara de desaprovação.
Carlos estava a ler o jornal, ignorando a nossa presença.
Eva estava no outro sofá, a abraçar o seu cão, Biscoito, e a soluçar dramaticamente.
"Oh, Lúcia, finalmente chegaste," disse Teresa, sem levantar os olhos do seu trabalho. "A pobre da Eva tem estado tão angustiada. O acidente foi um choque terrível para ela."
Eu olhei para a Eva. Não havia um único arranhão nela.
O cão parecia perfeitamente bem, a abanar a cauda.
"Eu perdi o meu filho," disse eu, a minha voz sem emoção.
Teresa finalmente olhou para mim, os olhos dela frios.
"Foi a vontade de Deus. Talvez não estivesses destinada a ser mãe. Agora, por favor, não perturbes mais a Eva. Ela é muito sensível."
A raiva subiu pela minha garganta, quente e amarga.
A minha mãe, Joana, colocou uma mão no meu braço, um aviso silencioso.
Ela sabia que discutir era inútil. Eles nunca nos veriam, nunca nos ouviriam.
Fomos para o nosso quarto. Era pequeno e abafado.
As coisas do bebé ainda estavam lá. O berço montado no canto, as roupinhas dobradas na gaveta.
Cada objeto era uma lembrança dolorosa.
Pedro entrou no quarto mais tarde. Ele não olhou para mim.
"A minha mãe fez o jantar," disse ele. "É melhor vires comer."
"Eu não tenho fome."
"Não comeces, Lúcia. Já está tudo suficientemente complicado."
"Complicado? O teu sobrinho morreu, Pedro. A tua mulher quase morreu. E tu chamas a isso 'complicado'?"
Ele finalmente olhou para mim, e não havia tristeza nos olhos dele, apenas irritação.
"O que queres que eu faça? Que chore e grite? Isso não vai trazê-lo de volta. Temos de seguir em frente. A minha família precisa de mim."
"E eu? Não sou a tua família?"
"Tu és a minha mulher. Devias apoiar-me, não criar mais problemas."
Ele saiu do quarto, deixando-me sozinha com os fantasmas do nosso futuro perdido.
Naquela noite, não consegui dormir.
Ouvi o Pedro a entrar no quarto tarde, a cheirar a álcool.
Ele deitou-se na cama sem me tocar.
No dia seguinte, comecei a arrumar as coisas do bebé.
Cada pequena meia, cada gorro, era uma tortura.
A minha mãe entrou e ajudou-me em silêncio.
Dobrámos tudo e colocámos em caixas.
Eva apareceu à porta, a segurar uma chávena de chá.
"A minha avó disse para te trazer isto," disse ela, com uma voz falsamente doce. "Para te acalmares."
Eu olhei para ela, para o seu rosto inocente e manipulador.
"Obrigada, Eva. Mas eu estou bem."
"Tens a certeza? Pareces tão... tensa. O Pedro disse que estás a agir de forma muito estranha. Ele está preocupado."
"Ele devia ter-se preocupado há uns dias."
Ela deu um passo para dentro do quarto, os olhos dela a percorrer as caixas.
"Estás a deitar fora as coisas do bebé? Tão depressa? Isso é um pouco frio, não achas?"
"Estou a arrumá-las," disse eu, a minha paciência a esgotar-se.
"Sabes," ela continuou, ignorando o meu tom, "o Pedro estava a dizer que talvez seja melhor assim. Quero dizer, um bebé é uma grande responsabilidade. Talvez vocês não estivessem prontos."
Foi isso. O último fio de controlo que eu tinha, partiu-se.
"Sai do meu quarto, Eva."
Ela levantou as sobrancelhas, fingindo surpresa.
"Eu só estava a tentar ajudar."
"Eu não pedi a tua ajuda. Eu pedi para saíres."
Ela deu um sorriso trocista e saiu, deixando a porta aberta.
Eu olhei para a minha mãe. O rosto dela estava pálido.
"Temos de sair daqui, mãe. Agora."
"Mas para onde, Lúcia? Não temos dinheiro, não temos para onde ir."
"Eu arranjo uma maneira," disse eu, a determinação a endurecer o meu coração. "Eu não vou passar mais um dia nesta casa."





