A Fênix das Cinzas da Tragédia

Quando o médico me disse que o meu filho tinha morrido, o mundo pareceu parar.

Eu estava sentada numa cadeira fria de hospital, com o meu marido, Pedro, ao meu lado.

Ele segurava a minha mão, mas o seu toque não me trazia conforto.

"Senhora Mendes," disse o médico com uma voz suave, "Fizemos tudo o que podíamos."

As palavras ecoaram na minha cabeça, mas não as consegui processar.

O meu filho, o nosso pequeno Tiago, tinha nascido prematuro há apenas uma semana.

Lutou muito, mas o seu pequeno corpo não aguentou.

"Onde está a Eva?" perguntei, a minha voz era um sussurro rouco.

Eva, a irmã gémea de Pedro, era a pediatra chefe neste hospital.

Ela prometeu-nos que cuidaria pessoalmente do Tiago.

Pedro apertou a minha mão com mais força.

"Ela está ocupada, Sofia. Houve um grande acidente de autocarro. Ela está a salvar outras crianças."

As suas palavras não faziam sentido.

Salvar outras crianças? E o nosso filho? O sobrinho dela?

Olhei para o rosto de Pedro, procurando qualquer sinal de que ele partilhava da minha confusão, da minha dor.

Mas o seu rosto estava em branco, como se ele estivesse a recitar um facto de um livro.

"Vamos para casa, Sofia. Precisas de descansar."

Ele puxou-me para cima, e eu segui-o como um autómato.

O caminho para casa foi silencioso.

A casa parecia vazia, assustadoramente silenciosa sem os bipes das máquinas do hospital a que me habituara na última semana.

Sentei-me no sofá, a olhar para o berço vazio no canto da sala.

Tínhamos montado dois berços, um para o Tiago e outro para o nosso futuro segundo filho.

Agora, ambos estavam vazios.

Pedro foi para a cozinha e voltou com um copo de água.

"Bebe isto."

Obedeci, a água fria a descer pela minha garganta seca.

O meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Ignorei.

Tocou outra vez. E outra vez.

Na quarta vez, Pedro pegou no telemóvel da minha mão.

"Quem é?" perguntou ele, a sua voz irritada.

Houve uma pausa.

"Sim, sou o marido dela. O que quer?"

Ele ouviu por um momento, a sua expressão a mudar de irritação para algo que eu não conseguia identificar.

"Entendo. Obrigado por me informar."

Ele desligou e colocou o telemóvel na mesa.

"Quem era?" perguntei.

"Apenas um vendedor," disse ele, demasiado depressa.

Eu sabia que ele estava a mentir. O Pedro era péssimo a mentir.

"Pedro, diz-me a verdade."

Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo.

"Era do banco. Sobre o empréstimo da empresa."

A empresa dele. A empresa que ele começou com o dinheiro que o meu pai nos deu como presente de casamento.

Estava a falhar. Eu sabia disso, embora ele tentasse esconder de mim.

"O que é que eles disseram?"

"Não é nada com que te devas preocupar agora, Sofia. Já temos o suficiente no nosso prato."

A sua evasão só alimentou a minha crescente sensação de pavor.

O meu filho estava morto. A empresa do meu marido estava a afundar-se. E a minha cunhada, a médica que deveria salvar o meu bebé, estava em parte incerta.

Uma onda de náusea percorreu-me. Corri para a casa de banho e vomitei.

Quando voltei, Pedro estava ao telefone.

A sua voz era baixa, mas eu conseguia ouvir a urgência nela.

"Eva, onde estás? Preciso de ti. A Sofia não está bem."

Houve uma longa pausa enquanto ele ouvia a resposta dela.

"Eu não me importo com o acidente! O teu sobrinho morreu! Precisamos de ti aqui!"

A sua voz subiu, cheia de uma angústia que eu não tinha visto antes.

"O quê? Como assim não podes vir? Que reunião é mais importante do que isto?"

Ele bateu com o punho na parede, deixando uma pequena mossa no gesso.

"Está bem. Está bem, faz o que tens de fazer."

Ele desligou, o seu rosto pálido e tenso.

"Ela não vem," disse ele, a sua voz desprovida de emoção. "Ela tem uma reunião importante com investidores para o novo centro de investigação do hospital."

Uma reunião.

O meu filho estava morto, e a irmã dele, a sua tia, tinha uma reunião.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios.

"Claro que tem. O trabalho dela sempre veio primeiro."

Isto era um eco doloroso, a Eva sempre se preocupou mais com a sua carreira do que com qualquer outra coisa.

Sempre.

Pedro olhou para mim, os seus olhos finalmente a mostrarem uma centelha de dor partilhada.

"Sofia, eu sinto muito."

Mas as suas palavras chegaram demasiado tarde. A fenda entre nós já se tinha formado, e eu sabia, com uma certeza arrepiante, que só iria aumentar.

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