A Fênix das Cinzas da Tragédia

A noite seguinte foi um borrão de insónia e silêncio.

Pedro dormiu no sofá. Ou pelo menos fingiu dormir.

Eu fiquei na nossa cama, a olhar para o teto, a ouvir a sua respiração irregular.

Cada som na casa parecia amplificado – o zumbido do frigorífico, o ranger do chão de madeira.

De manhã, encontrei-o na cozinha, a fazer café.

Ele não olhou para mim.

"Vou tratar dos... arranjos," disse ele, a sua voz rouca.

Arranjos. Uma palavra tão clínica, tão distante, para o funeral do nosso próprio filho.

Assenti, incapaz de formar palavras.

Ele saiu de casa sem dizer mais nada.

Fiquei sozinha com o silêncio e os dois berços vazios.

Caminhei até ao quarto do bebé. Tudo estava perfeito, à espera.

As paredes pintadas de um azul suave. Os pequenos macacões dobrados na gaveta.

Peguei num pequeno par de botinhas de lã que a minha mãe tinha tricotado.

Eram tão pequenas. Tão perfeitas.

Sentei-me no chão, a segurar as botinhas contra o meu peito, e finalmente chorei.

Chorei pela perda do meu filho, pela frieza do meu marido, pela traição da minha cunhada.

Chorei até não ter mais lágrimas.

Horas depois, a campainha tocou.

Arrastei-me até à porta, o meu corpo a sentir-se pesado e dorido.

Era a minha mãe.

Os seus olhos estavam vermelhos e inchados, mas quando ela me viu, a sua expressão transformou-se em pura preocupação.

"Oh, minha querida."

Ela envolveu-me nos seus braços, e eu desabei contra ela, um novo fluxo de lágrimas a começar.

Ela guiou-me até ao sofá e sentou-se ao meu lado, a segurar a minha mão.

"Onde está o Pedro?" perguntou ela suavemente.

"Foi tratar dos... arranjos."

A minha mãe franziu o sobrolho. "Sozinho? Ele devia estar aqui contigo."

Eu encolhi os ombros, sentindo-me vazia. "Ele não sabe como."

"E a Eva? Ela veio ver-te?"

Eu abanei a cabeça. "Ela tinha uma reunião."

A raiva brilhou nos olhos da minha mãe. "Uma reunião? Que tipo de mulher põe uma reunião à frente da sua família neste momento?"

Ela não esperou por uma resposta. Pegou no seu telemóvel e marcou um número.

"Eva, é a Ana. Onde estás?"

A sua voz era gelada.

"Não me interessa onde estás. A tua cunhada precisa de ti. O teu irmão precisa de ti. O teu sobrinho está morto, caso te tenhas esquecido."

Houve uma pausa.

"Não, não vou acalmar-me. És uma desgraça. Nunca gostei de ti, e agora sei porquê. Não tens coração."

Ela desligou com força.

"Desculpa, querida. Eu não devia ter feito isso à tua frente."

"Não," disse eu, a minha voz surpreendentemente firme. "Obrigada."

Pela primeira vez em dias, senti uma centelha de outra coisa que não dor.

Era raiva. E era boa.

A minha mãe ficou comigo o resto do dia. Ela fez-me chá, obrigou-me a comer uma fatia de tosta e ouviu-me enquanto eu falava sobre o Tiago.

Falei sobre como ele agarrou o meu dedo com a sua mãozinha, sobre o cheiro do seu cabelo.

Ela ouviu, as suas próprias lágrimas a caírem silenciosamente.

Quando Pedro voltou ao fim da tarde, parecia exausto.

Ele olhou para a minha mãe, depois para mim.

"Olá, Ana," disse ele rigidamente.

"Pedro," respondeu a minha mãe, a sua voz igualmente fria.

O ar na sala estava denso com tensão não dita.

"Está tudo tratado," disse Pedro, dirigindo-se a mim. "O serviço será na sexta-feira."

Sexta-feira. Daqui a dois dias.

Ele sentou-se na poltrona do outro lado da sala, criando uma distância física que espelhava a emocional.

"A Eva ligou," disse ele. "Ela disse que sente muito por não poder vir. Ela vai tentar chegar a tempo para o funeral."

"Tentar?" A minha mãe bufou. "Que generoso da parte dela."

Pedro ignorou-a. "Ela também disse... ela disse que o centro de investigação recebeu o financiamento. O nome dela estará na placa."

Ele disse isto como se fosse uma espécie de prémio de consolação.

Como se o sucesso da carreira da irmã dele pudesse, de alguma forma, compensar a morte do meu filho.

Olhei para ele, realmente olhei para ele, e vi um estranho.

Um homem que estava mais preocupado em apaziguar a sua irmã do que em confortar a sua esposa.

Um homem que estava a afogar-se nas suas próprias falhas e a arrastar-me com ele.

"Eu quero o divórcio," disse eu.

As palavras saíram antes que eu pudesse pará-las, silenciosas mas claras na sala tensa.

Pedro olhou para mim, chocado. "O quê? Sofia, não podes estar a falar a sério. Estás em sofrimento. Não estás a pensar com clareza."

"Oh, estou a pensar com mais clareza do que nunca," respondi, a minha voz a ganhar força. "O nosso filho morreu, Pedro. E tu e a tua irmã agem como se fosse apenas um inconveniente."

"Isso não é verdade!"

"Não é? A Eva nem sequer se deu ao trabalho de vir. E tu? Estás mais preocupado com a porcaria da tua empresa e em defender a tua irmã do que comigo."

"A minha empresa está a falir! Estou a tentar salvar-nos!" gritou ele, finalmente a deixar a sua frustração transparecer.

"Salvar-nos? Ou salvar-te a ti mesmo?"

Levantei-me, sentindo uma estranha calma a instalar-se sobre mim.

"Acabou, Pedro. Eu quero que saias."

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