A Escolha Dele: O Preço da Indiferença

O cheiro a fumo foi a primeira coisa que senti. Espesso e acre, enchia os meus pulmões a cada respiração. Estava no oitavo andar de um prédio antigo no Chiado, para uma consulta de rotina. Grávida de oito meses, cada movimento era um esforço.

A minha mãe, Helena, agarrou no meu braço, os seus olhos largos de pânico. Lá fora, as sirenes começaram a gritar, um som que subia da rua e parecia entrar pelas paredes.

O alarme de incêndio soou, estridente e implacável.

Agarrei no meu telemóvel com os dedos a tremer. O primeiro nome na minha lista de contactos era Tiago. O meu marido.

A chamada foi para o voicemail.

Tentei outra vez. E outra. Nada.

"Ele deve estar ocupado, querida," disse a minha mãe, a sua voz a tentar ser calma, mas a falhar.

"Ele é paramédico, mãe. Ele devia estar a vir para cá. Este é o trabalho dele."

O fumo ficava mais denso. As pessoas no corredor corriam, gritavam. Um homem de fato passou por nós a correr, empurrando a minha mãe contra a parede. Ajudei-a a levantar-se, o meu coração a bater descontroladamente contra as minhas costelas. A minha barriga estava dura como uma pedra.

Liguei ao Tiago uma quarta vez. Desta vez, ele atendeu. O alívio foi tão forte que quase caí.

"Tiago! Graças a Deus! Estamos presas num incêndio no prédio do consultório! Oitavo andar!"

Houve uma pausa do outro lado. Ouvi uma voz feminina ao fundo, suave e chorosa. Sofia. A amiga de infância dele.

"Clara, tem calma," disse ele, a sua voz distante, sem a urgência que eu esperava. "Onde estás exatamente?"

"No Chiado! O prédio está a arder! Precisamos de ajuda, Tiago! O fumo..."

"Ok, ok, ouve," ele interrompeu-me. "Estou um pouco ocupado agora. A Sofia teve um ataque de pânico. Viu as notícias e ficou muito assustada. Estou a caminho de casa dela."

Fiquei em silêncio. O mundo pareceu parar. O som das sirenes, os gritos, tudo se desvaneceu. Só conseguia ouvir as suas palavras.

Ele estava a caminho de casa dela.

"O quê?" consegui dizer, a minha voz um sussurro rouco.

"Não posso deixá-la sozinha assim, Clara, tu sabes como ela é. Fica onde estás, os bombeiros estão a chegar. Liga para o 112."

"Eu estou grávida de oito meses, Tiago. Estou presa num prédio a arder com a minha mãe."

"Eu sei, mas a Sofia precisa de mim. Ela não tem mais ninguém."

A chamada terminou. Olhei para o ecrã do telemóvel, incrédula. Ele tinha desligado.

A minha mãe olhava para mim, o seu rosto uma máscara de choque e raiva. Ela tinha ouvido tudo.

Naquele momento, com o fumo a queimar-me os olhos e o medo a sufocar-me, uma certeza fria instalou-se no meu coração.

O meu casamento tinha acabado.

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