A Escolha Dele: O Preço da Indiferença

Um bombeiro arrombou a porta. O seu rosto estava coberto de fuligem, mas os seus olhos eram calmos. Ele colocou uma máscara de oxigénio no meu rosto primeiro, depois no da minha mãe.

"Vamos tirar-vos daqui," disse ele.

Fui levada numa maca, descendo oito lances de escadas. A cada solavanco, uma dor aguda atravessava a minha barriga. Eu agarrava-a, a rezar silenciosamente. Por favor, que o bebé esteja bem. Por favor.

No hospital, tudo era uma confusão de luzes brancas e vozes apressadas. Levaram a minha mãe para uma sala e a mim para outra. Uma médica com um rosto sério examinou-me.

"A senhora inalou muito fumo e o stress causou um parto prematuro. Vamos ter de fazer uma cesariana de emergência."

As suas palavras eram factos, diretas, mas cada uma delas era um golpe.

Acordei horas depois. O quarto estava silencioso. Olhei para o lado. A minha barriga estava vazia, coberta por um penso.

O berço ao lado da minha cama estava vazio.

A minha mãe entrou no quarto, o seu rosto pálido. Ela sentou-se ao meu lado e segurou a minha mão. Não precisou de dizer nada. As lágrimas que lhe escorriam pelo rosto diziam tudo.

O meu filho. O meu bebé. Tinha-o perdido.

Chorei. Um choro silencioso, que abalava o meu corpo todo, mas não emitia som.

A porta abriu-se. Era o Tiago. E atrás dele, a Sofia, agarrada ao seu braço, com os olhos vermelhos como se tivesse chorado durante horas.

"Clara," começou o Tiago, a sua voz cheia de uma falsa preocupação. "Eu vim assim que pude. A Sofia estava inconsolável, tive de a acalmar e trazê-la aqui."

Sofia fungou. "Sinto muito, Clara. Eu fiquei tão assustada por ti. Tive um ataque de pânico terrível."

Olhei para eles. O meu marido e a mulher que ele escolheu em vez de mim. Em vez do seu próprio filho.

"O bebé," disse eu, a minha voz fria e vazia. "Morreu."

O rosto de Tiago ficou branco. Por um segundo, vi um vislumbre de choque. Mas depois, o seu rosto recompôs-se.

"Clara, eu sinto muito," disse ele. "Mas estas coisas acontecem. Foi o stress, o fumo..."

"Foi a tua escolha," interrompi-o. "Tu escolheste. Escolheste ir ter com ela em vez de vires salvar-nos."

"Isso não é justo!" disse a Sofia, a sua voz a subir. "Ele estava a ajudar-me! Eu estava a passar por uma crise!"

"Uma crise?" A minha mãe levantou-se, a sua voz a tremer de fúria. "A minha filha estava num prédio a arder! Grávida! E tu tens a audácia de falar de uma crise?"

"Saiam," disse eu. A minha voz era baixa, mas firme. "Os dois. Saiam daqui. Agora."

"Clara, não sejas assim," disse o Tiago, dando um passo em frente. "Estamos todos perturbados. Precisamos de nos apoiar uns aos outros."

"Eu quero o divórcio, Tiago."

As palavras saíram, e com elas, uma sensação de libertação.

Ele parou. Olhou para mim como se eu fosse louca. "Divórcio? Estás a falar a sério? Depois de tudo o que passámos? Por causa de um mal-entendido?"

"Não foi um mal-entendido," disse eu, olhando diretamente nos seus olhos. "Foi uma escolha. E agora eu estou a fazer a minha."

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