A Conta Vazia: Meu Divórcio Sem Arrependimentos

O médico olhou para os papéis, depois para mim.

"A condição do seu pai é crítica, precisamos de operar imediatamente."

A sua voz era calma, profissional, mas as palavras pesavam no ar do pequeno consultório do hospital.

"Quanto custa?" perguntei, a minha voz a sair mais firme do que eu sentia.

Ele disse um número. Cinquenta mil euros. Respirei fundo, mas foi um alívio. Nós tínhamos o dinheiro. Eu e o Tiago, o meu marido, tínhamos uma conta poupança conjunta exatamente para isto, para uma emergência com os meus pais.

"Tudo bem," disse eu. "Eu trato disso. Quando pode ser a cirurgia?"

"Assim que o pagamento for confirmado," respondeu ele.

Saí do consultório e caminhei pelo corredor branco e estéril. Peguei no meu telemóvel para fazer a transferência através da aplicação do banco. Abri a aplicação, introduzi a palavra-passe e naveguei até à nossa conta conjunta.

O saldo era de 17,34 €.

Dezessete euros e trinta e quatro cêntimos.

Fiquei a olhar para o ecrã, sem compreender. Atualizei a página. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. O número não mudava. O pânico começou a subir pela minha garganta, frio e apertado.

Liguei ao Tiago.

O som de fundo era alto, música e muitas pessoas a falar.

"Clara? O que foi? Estou um bocado ocupado," disse ele, com um tom de irritação.

"Tiago, o dinheiro," a minha voz falhou. "O dinheiro da conta poupança. Desapareceu."

Houve uma pausa. Ouvi alguém a rir perto dele, uma voz de mulher.

"Ah, isso," disse ele, casualmente. "Eu usei-o. Não te preocupes com isso agora."

"Usaste-o?" repeti, a palavra soava estranha na minha boca. "Para quê? O pai precisa de uma cirurgia urgente, Tiago. É por isso que tínhamos aquele dinheiro."

"Clara, agora não é uma boa altura," disse ele. "Estamos na festa de aniversário da Sofia. Ela faz trinta anos, é importante."

Sofia. A sua prima querida. A menina dos olhos da minha sogra.

"Que festa de aniversário custa cinquenta mil euros, Tiago?"

Ele suspirou, um som longo e sofrido, como se eu fosse a pessoa mais irracional do mundo.

"Eu comprei-lhe um presente. Ela merecia, coitada, tem andado tão em baixo."

O meu sangue gelou. "Um presente? Que presente?"

"Um carro," disse ele, e ouvi orgulho na sua voz. "Um Mercedes novo. Devias ver a cara dela, Clara. Pura felicidade."

Fiquei em silêncio. O mundo à minha volta, os sons do hospital, os passos das enfermeiras, tudo se desvaneceu. Só havia a voz do meu marido ao telefone, a falar sobre a pura felicidade de outra mulher, comprada com o dinheiro que era para salvar a vida do meu pai.

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