A Chama da Vingança

O cheiro a queimado e a fumo ainda pairava no ar quando abri os olhos.

A sirene de uma ambulância soava ao longe, um som agudo e persistente que cortava o silêncio da noite.

O meu corpo doía por todo o lado, especialmente o meu braço esquerdo, que estava enfaixado e latejava com uma dor surda.

Virei a cabeça e vi o meu marido, Pedro, sentado ao meu lado.

Ele segurava o seu telemóvel, o rosto iluminado pelo ecrã, e sorria.

Não era um sorriso de alívio por me ver acordada, era um sorriso divertido, como se estivesse a ver algo engraçado.

"Pedro?" A minha voz saiu rouca, arranhada.

Ele levantou a cabeça, o sorriso desapareceu, substituído por uma expressão de impaciência.

"Finalmente acordaste. Pensei que ias dormir para sempre."

"O que aconteceu?" perguntei, tentando sentar-me, mas uma dor aguda no meu peito forçou-me a deitar-me novamente.

"O que achas que aconteceu? O restaurante pegou fogo. Tivemos sorte em sair de lá."

O restaurante. O nosso restaurante. O sonho pelo qual trabalhámos durante cinco anos.

As memórias voltaram de repente, o cheiro a gás, o calor intenso, os gritos. Lembro-me de ter empurrado Pedro para a saída de emergência antes de o teto desabar.

"O meu pai... onde está o meu pai?" perguntei, o pânico a subir pela minha garganta.

"O teu pai está bem. Ele está a tratar da Sofia."

A voz dele era fria, desprovida de qualquer emoção.

Sofia. A sua irmã mais nova.

Uma chamada de vídeo interrompeu a nossa conversa. Pedro atendeu imediatamente, o sorriso a voltar ao seu rosto.

"Olá, maninha! Estás a sentir-te melhor?"

No ecrã, vi o rosto pálido de Sofia. Ela estava deitada numa cama de hospital, com o meu pai, Rui, a ajustar-lhe o soro.

"Estou bem, Pedro. Só inalei um pouco de fumo. O pai Rui tem estado a cuidar de mim. Obrigada por me tirares de lá tão depressa. Se não fosses tu, eu..."

A voz dela tremeu.

"Não digas isso," disse Pedro, a sua voz suave e carinhosa. "És a minha irmã. Claro que te ia salvar primeiro."

Salvar primeiro.

As palavras ecoaram na minha cabeça.

Eu era a sua esposa. Eu estava mais perto da explosão. Eu empurrei-o para a segurança.

E ele deixou-me para trás para salvar a irmã dele.

"Pedro," chamei, a minha voz agora firme. "Quero o divórcio."

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