Laços de Interesses: 365 dias de casamento por conveniência.

Giulia pegou o carro na oficina na manhã seguinte após sair do hospital. Para pagar o conserto, ela usou o dinheiro que guardou para comprar os livros da faculdade e o troco do valor que Maximilian havia deixado para ela pegar um táxi.

O veículo passeava pela Região de Piemonte quando Giulia avistou os amplos hectares da maior propriedade de Arignano.

A fazenda Montebello era autossustentável e independente de energia. Era uma das líderes em energia limpa daquela cidade.

Aquela manhã estava fria, mas não tão glacial quanto o local em que morou com a sua tia nos últimos anos.

Enquanto as rodas amassavam as pedras de cascalhos no caminho estreito até o sítio, ela observou o mato alto e percebeu que não havia nenhum funcionário à vista, apenas uma senhora a esperava na soleira da porta. A mulher esbelta acenou para Giulia.

— Madrinha, — Giulia chamou ao descer do Chevrolet Impala 67 na cor azul.

— Que bom que você veio, querida.

— O que houve? — Giulia notou que havia algo estranho. — Aconteceu alguma coisa com meu pai?

— Ele está com visitas! — Adelaide sussurrou. — Aquele ex-deputado, que é o dono da fazenda Montebello, está conversando com ele.

— O que ele faz aqui?

— Veio fazer uma cobrança.

— O meu pai não comentou nada sobre dívidas.

— Como você vê, ele foi obrigado a dispensar os funcionários e pegar dinheiro emprestado para quitar algumas contas, mas não foi o suficiente. Não conseguiu lidar com tudo sozinho e acabou adoecendo ainda mais.

— Licença!

— Aonde vai, Giulia?

— Quero falar com o meu pai.

Passando pela madrinha, ela apressou os passos quando escutou o pai tossindo. Parou na porta do quarto ao ver o homem de meia-idade sentado ao lado da cama de seu pai.

— Filha, — o velho deitado sobre a cama tentou levantar, mas já estava sem forças.

— Essa é pequena Giulia? — O homem alto levantou da cadeira e pôs o chapéu na cabeça. — Você se tornou uma linda mulher, — piscou. — Então, meu docinho, acho que você deve estar estranhando o motivo da minha visita.

— O que veio fazer aqui? — Ela engoliu em seco.

— Enquanto você estudava em outra cidade, a situação financeira de seu pai se complicou um pouco. — O senhor Emílio Salvini passou a mão áspera pelo rosto de Giulia.

Ela cerrou os olhos por um momento, sentindo horror ao toque daquele homem.

— Por dois anos, o seu pai pediu para prorrogar o prazo, mas agora, eu preciso desse dinheiro.

— Por favor, — a voz crepitante de Sebastian implorou. — Me dê só mais alguns meses.

— Já te falei os meus motivos, eu preciso dessa quantia.

— Sim, — Sebastian tossiu, a preocupação com a integridade da filha aumentou. — Te peço só mais cinco meses.

Giulia sensibilizou-se com a condição crítica que seu pai se encontrava. Não sabia que ele tinha piorado tanto.

— Sabe, docinho, você é tão linda como a sua mãe era, e talvez, seja tão fogosa quanto ela foi. — A voz profunda declarou. — O seu pai logo deixará essa propriedade e logo você herdará uma grande dívida. Podemos fazer um acordo, — Emílio sugeriu.

— Afaste-se dela, — Sebastian tentou defender a filha em vão.

O desespero fez o homem debilitado perder o fôlego, Sebastian tossiu violentamente, havia sangue no lenço que ele escondeu embaixo da manta que lhe cobria as pernas. A filha estava com os ombros encolhidos, andando para trás como um bichinho acuado.

— O meu pai não vai morrer.

— Olhe para ele, docinho. O seu paizinho está definhando.

Lágrimas brotaram dos olhos de Giulia. Ela retrocedeu mais alguns passos e bateu com as costas na parede. O coração acelerou quando o brutamontes aproximou o nariz e sentiu o aroma do xampu de baunilha que ela costumava usar nos seus cabelos.

— O que está acontecendo aqui, Emílio?

Uma senhora de cabelos negros apareceu na porta do quarto. Beatrice adentrou em passos comedidos, analisando a garota acuada com apenas um olhar.

— Essa é a Giulia! — Adelaide surgiu em seguida. — Ela é a filha do Sebastian. A Giulia ingressou na Universidade e veio visitar o pai antes de começar as aulas.

— Ótimo, ela pode te ajudar a arrumar essa casa e limpar antes de colocarmos à venda.

— Claro, senhora, — Adelaide abaixou o rosto.

— Vai vender o sítio? — Giulia direcionou o olhar para o pai.

— Seu pai não tem dinheiro e do jeito que essa porcaria de propriedade está, a venda não vai render a metade do dinheiro que ele me deve, — disse Emílio.

— Por que fez isso, pai? — Lágrimas vertiam no canto dos olhos de Giulia.

O homem grandalhão revirou os olhos e andou até a janela.

— A minha esposa vai administrar a organização desta casa e, logo, o meu filho Max virá para apresentar as terras aos novos compradores.

Max! Pensou ela. Só podia ser uma tremenda coincidência.

— Vou vender o meu carro e pagar a metade, — Giulia propôs.

— Aquela lata velha lá fora? — O senhor Salvini falou com desdém após abrir as cortinas e avaliar o veículo. — Aquilo não paga nem um terço do que seu pai me deve.

— Não faça isso, filha, — Sebastian disse, a respiração estava fraca. — Guarde esse dinheiro para se sustentar.

O som de uma música country interrompeu a conversa. Emílio foi direto para o corredor onde atendeu a chamada.

— Posso convencer o meu marido a fazer um bom desconto em troca daquela lata velha azul que você chama de carro. Adoro automóveis antigos, — Beatrice tocou o nariz afilado.

Giulia olhou com tristeza para o pai, que negava com a cabeça. Ele tinha lhe dado aquele carro quando ela completou dezessete anos.

Tirando a chave do bolso, Giulia deu alguns passos hesitantes até a elegante mulher e entregou.

— Beatrice, tenho que voltar à Montebello, você vem? — Emílio apareceu na porta.

— Não, querido, eu ficarei mais um pouco para colocar ordem nesta casa. Pedirei ao motorista que venha me buscar antes do pôr do sol.

— Certo, até mais!

Giulia aproveitou que o casal saiu e sentou ao lado do pai quando ele começou a tossir em busca de ar. Ela ajudou-o a tomar um pouco de água.

— Não devia ter dado o carro, minha filha. — Sebastian disse pausadamente.

— Prefiro continuar com o sítio. Esta casa é muito especial. Cada cômodo tem lembranças da minha infância e da mamãe!

— Filha, volte para a casa da sua tia Francesca e siga em frente com sua vida.

Ela não teve coragem de contar que foi expulsa da casa da tia.

— Não, o senhor precisa de mim, eu vou ficar, — acrescentou com veemência. — Fiquei muito tempo fora, e agora, vou te auxiliar a reconstruir esse lugar.

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