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A Farsa
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Em A Farsa, Andreia vive uma vida dupla como stripper para custear o tratamento da mãe. Ao se envolver com Miguel, filho do dono do hospital, este romance modern enfrenta o risco da traição. Leia este billionaire romance novels e descubra se a verdade destruirá essa paixão em nossa web novel.

Capítulo 1 de A Farsa

Qual foi a maior mentira que você já contou?

Sabe aquela que só em pensar te enche de tremores e receios?

Pois bem, eu sou uma stripper! Sim, eu danço apenas de fio dental no colo de desconhecidos em troca de eles colocaram notas de altos valores na minha ínfima calcinha.

Saio de dentro de bolos de aniversário, faço acrobacias no pole dance, tudo para ter o máximo de dinheiro possível. Tudo para salvá-la.

O que a maioria das pessoas vê em mim no dia a dia é uma linda loira de inocentes olhos azuis. Muita gente me pergunta por que eu não fui modelo ou atriz, por que não me aproveitei da minha beleza. Não usarei de falsa modéstia.

Sou bonita.

E isso me fez ser o que sou de todas as maneiras possíveis.

As pessoas facilitavam a vida para mim, me davam cola, carona e tudo que você possa imaginar. E isso me tornou uma mulher preguiçosa... Se todas as pessoas bonitas são preguiçosas? Eu não sei. Porém, isso também não é relevante, já que esta história é sobre mim. E como eu perdi de todas as maneiras possíveis e imagináveis.

Capítulo 1

Todas as vezes que sirvo café para uma freira, eu me pergunto o que ela pensaria se soubesse que há algumas horas eu rebolava em um palco usando apenas um fio dental minúsculo, enquanto homens jogavam notas de dinheiro em minha direção. Tento conter este tipo de pensamento, porém ele é quase automático.

Eu não sou prostituta, também não critico quem é, sou uma stripper, uma não, sou a melhor stripper. Tenho que ser, pois não há escolhas.

Minha história não começou aqui, longe disso, posso lembrar-me de quando tudo deu absurdamente errado.

Há cerca de três anos, quando eu tinha apenas dezessete anos, era uma adolescente como tantas outras e apesar de ser muito bonita, não tinha permissão para namorar. Isso não impedia os homens de me notarem, mesmo enclausurada, porque minha mãe só me permitia sair sozinha para ir à igreja, onde suas amigas fanáticas não despregavam os olhos de mim.

Porém, durante uma missa, senti um olhar me queimando, olhos másculos e escuros, um nariz arrebitado e cheio de sardas apesar da pele cor de café com leite, cabelos cacheados que lhe dava um ar quase angelical; quando nossos olhos se cruzaram ambos sorrimos, tentei prestar atenção nos ritos, mas era difícil com aquele moreno absurdamente perfeito tão próximo.

No fim da missa ele veio me desejar a paz do senhor e pude sentir um papel sendo transferido para a minha mão, disfarcei e corri até o banheiro, onde o li, ciente de que aquilo era contra tudo que meus pais desejavam.

"Ligue-me amanhã, loira mais linda do mundo? Um beijo onde preferir, Denis".

Enfiei o papel no sutiã e saí do banheiro com um sorriso imenso, liguei no dia seguinte e no outro, e no outro...

Começamos a nos ver escondidos, até ficarmos juntos, e ele me virou a cabeça. Eu só pensava no meu moreno delícia, achava que era recíproco porque ele se tornou um membro ativo da igreja na época.

Em um sábado como tantos outros, eu fechava a sala de catequese — sim já fui catequista — Denis veio ao meu encontro, posso dizer cada detalhe do seu rosto e a intensidade dos seus olhos cor de avelã, enquanto ele sorria e pegava minha mão me fazendo estremecer de vontades que não combinavam com meu estado virginal.

— Estava te procurando, minha loira.

— Aqui não. Aqui meu pai vê.

Ele me arrastou para dentro da sala e não pude fazer nada, aqueles olhos mais escuros que uma noite sem estrelas me enlouqueciam. Quando dei por mim estava encaixada nele, num beijo arrebatador, a boca dele me sugava inteira, enquanto suas mãos brincavam com meu sutiã.

Logo estávamos deitados sobre a mesa onde eu ensinara tudo que jogava fora naquele momento.

Quando podíamos nos beijar como era o caso, beijávamos até dar câimbra na mandíbula.

— Aqui não, Denis.

Saímos correndo até uma casa vazia que pertenciam aos pais dele, pulamos o muro e ficamos numa área coberta por telhas de amianto.

As mãos dele mexeram comigo de uma maneira até ali inédita, era o primeiro a ver e tocar os meus seios, assim como também foi o primeiro a me deixar nua, os cachos de cabelo dele caiam sobre minha pélvis, enquanto ele me mostrava outras funções que uma língua poderia ter.

Contorci-me ante a pressão que a boca dele fazia contra meu clitóris, e aquele orgasmo ainda virginal liberou uma fera dentro de mim.

Um fim de semana após meu aniversário de dezoito anos, meus pais saíram em uma excursão da igreja, eu não pensei duas vezes: trouxe Denis para minha casa, que, sem nenhuma pressa, tirou minha virgindade com tanta presteza que o ardor intenso teve um toque de prazer. Eu pertencia a ele, e adorava. Depois disso acabamos com o estoque de preservativos da cidade, ele brincava comigo e me tinha onde bem quisesse, porém apesar do desejo que o consumia ele não falava mais sobre compromisso, até passou a evitar o assunto.

Porém eu estava louca por ele, e naquela época preferia não ver.

Na semana do aniversário dele de dezenove anos, os pais liberaram um sítio para que Denis desse uma festa para os amigos.

Meus pais vetaram, eu, uma moça de família, não iria me dar ao desfrute, entretanto, no tal sábado esperei meus pais dormirem, estourei meu cofrinho e pulei a janela, precisava dar um beijo de aniversário em Denis, era meu único pensamento. Eu voltaria antes que eles acordassem, fui até o ponto de táxi e entrei no primeiro que passou, meu coração parecia saltar da boca, paramos o mais próximo possível e saí do carro, num misto de excitação e medo, pois era a primeira vez que eu mentia para meus pais de maneira tão grande e foi a última.

Tive que caminhar um bom pedaço até a porteira, fiquei mais aliviada quando ouvi a música que vinha de lá.

Desci a ladeira íngreme que me levaria até a casa. Vários casais se pegavam sem pudores pelo caminho.

Entrei e soube que Dênis ainda não chegara, fiquei ali perto do bar, mesmo na época não bebendo; alguns rapazes me convidaram para dançar e eu recusei.

Lembro-me que levou bastante tempo até a buzina dele arrastar metade da festa para fora, todos gritavam, acenando e jogando copos descartáveis no carro.

Ele desceu e antes que eu pudesse chegar até ele, uma morena desceu do carro. Dênis não perdeu tempo, foi até ela e beijou-lhe a boca. Algumas pessoas começaram a me olhar, como que me chamando de corna. Passei por um rapaz que segurava um copo imenso cheio de cerveja, o peguei e fui até onde estavam e lancei todo o líquido sobre eles.

— O que está fazendo aqui, Andreia? Não disse que não estava a fim de te comer hoje?

Todos riram, eu olhei fundo em seus olhos castanhos e saí.

Voltei pela estrada de terra, chorando. Havia me guardado tanto para isso? Para ser "comida"?

Como eu o odiava, na verdade eu me odiava. Peguei o telefone no bolso de trás da minha calça jeans e fiz a maior de todas as burradas, liguei para casa.

O telefone tocou várias vezes, até ouvir a voz de minha mãe, foi a última vez que eu a ouvi.

— Andreia cadê você? Seu pai vai te matar! Olha, eu nunca deixei ele te bater, mas dessa vez eu vou deixar, você está merecendo.

Mamãe fazia aquela ameaça, que nunca se cumpriu, desde que eu era pequena.

Hoje eu queria meu pai ao meu lado, nem que fosse para me dar a tal surra.

— Manhê, tem como vocês virem me buscar? Me desculpe mãezinha, eu não devia ter vindo.

— E o namoradinho não foi?

— Eu não tenho...

— Tem sim filha, é até natural que tenha. Você já tem dezoito anos.

— Ele trouxe outra — desabei ali sozinha.

— Coração de mãe não se engana, não é? Passe o endereço — dei a minha localização exata — Vou acordar aquele velho preguiçoso e já vamos e Déia...

— Fala, mãe.

— Mamãe te ama muito, nunca se esqueça.

Todas as vezes que penso nas últimas palavras que minha mãe me disse eu choro. Lembro-me de ficar perto da rodovia por horas e estranhar a demora. Até que meu celular tocou.

— Boa noite, com quem eu falo?

— Andreia, quem é?

— Somos da polícia rodoviária, houve um acidente...

— Um o que?

— Um acidente perto do cruzamento da... Anotei mentalmente o endereço.

— Quem se acidentou? — perguntei já sabendo a resposta.

— Um carro — enquanto ele descrevia o modelo, a cor e o ano do carro, senti minhas forças me abandonarem.

Perguntei o local e eram quinze minutos de caminhada pelo acostamento, não sei dizer quanto tempo eu levei, sei que nunca corri tanto na minha vida.

Chegando perto vi que a rodovia estava interditada. O carro deles estava de ponta-cabeça, havia um corpo coberto pelo que me parecia ser papel alumínio, eu queria muito chegar lá, ao mesmo tempo em que não queria nunca ter saído de casa. Caminhei até o local do acidente como alguém que caminha no corredor da morte.

— Rodovia interditada, um dos motoristas veio a óbito no local, passageiro em estado grave, o outro carro sem feridos graves.

Andei o mais rápido que consegui, me sentia como dentro de um pesadelo.

Parei um guarda e falei que haviam me ligado sobre o tal acidente e que aquele era o carro dos meus pais. O policial me encarou e tirou o quepe, uma coisa que eu posso te ensinar, não sei muitas coisas, mas isso eu cansei de ver, quando um policial tira o quepe, ou o médico tira a touca é que algo terrível aconteceu.

— Quantos anos você tem, menina?

— Dezoito.

— Você tem algum parente que possa ficar com você? — ele desviou os olhos dos meus.

— Só os meus pais, eu não tenho tios ou avós.

— Gomes? A leve até a ambulância e lhe aplique um calmante.

— Não! Eu não quero calmante, eu quero saber o que está acontecendo.

Lembro-me de ser arrastada até uma ambulância e me aplicarem uma injeção hipodérmica, um policial de meia idade veio até mim.

— Andreia, houve um acidente e infelizmente seu pai não resistiu, sua mãe será transferida para um hospital da região.

Meus olhos desviaram dele e foram para o corpo estendido na estrada, era isso que meu pai se tornou: um corpo.

Seu Messias era o melhor pai que alguém poderia ter, e eu agradeço por Deus ter me concedido a graça de tê-lo em minha vida, meu pai só me chamava de princesa e me tratava feito uma. E agora, por causa da minha desobediência, era só um corpo jogado no asfalto.

Fui até lá e levantei a manta que o cobria. Seu rosto estava tão machucado quanto sereno. Não consegui nem chorar, a dor me transpassou.

Um helicóptero pousou na rodovia e levou minha mãe enquanto eu fiquei ali parada, tentando absorver a vida que se abria na minha frente.

O enterro do meu pai no dia seguinte foi o pior momento da minha vida, quase morri quando o caixão desceu. Havia algumas poucas pessoas, nossa família consistia em apenas nós três. E agora seria só mamãe em coma e eu.

Quando voltei do enterro, passei rapidamente em casa e fui para o hospital.

— Senhorita Andreia, sua mãe está passando por complicações, ela teve uma embolia e o único hospital capaz de cuidar do caso dela fica na capital, e não faz parte da rede pública.

Meu mundo caiu. Fechei minha poupança pró-faculdade e vendi tudo que podia a preço de banana para conseguir a transferência. Quando chegamos ao tal hospital de luxo, mais um golpe: o estado dela piorou e por isso teria de ficar numa máquina que faria a função dos pulmões e do coração. Como não tínhamos convênio, isso parecia impossível, porém um médico me mostrou uma brecha. Dei o dinheiro que ainda tinha para garantir o mês, quando ela acordasse eu trabalharia e ajuntaria tudo novamente.

Mal sabia que aquilo era o início da minha destruição.

Uma tarde em que eu chorava e sofria o fato de que só tinha dinheiro para dois meses de hospital e mais nada, as coisas começaram a mudar. Uma luz se acendeu quando conheci Clóvis Salgado, dono de uma rede de lanchonetes hospitalares.

Como não tinha qualificações fui contratada para ser garçonete, não dava para bancar o tratamento, porém eu poderia pagar o aluguel do cômodo em que eu morava num cortiço, era apenas servir lanches e café.

E no meu primeiro dia de trabalho arrumei meu segundo emprego, também como garçonete, porém agora o ambiente era o oposto a hospitais. O Burlesco era uma das maiores casas noturnas de São Paulo.

Era muito glamoroso, porém eu preferia o primeiro emprego, pois além de não ter a aura sexual, eu ainda o via. No pior momento da minha vida, arrumei uma paixonite. Era estranho e ao mesmo tempo muito bom vê-lo! Sem brincadeira, ele era o homem mais lindo que eu já havia visto, o cabelo escuro era bem curto, volta e meia usava uma barba, que minha nossa senhora das mulheres solteiras, era um escândalo, a pele alva esticada perfeitamente sobre ossos e músculos o tornando um homem alto e forte. Meu sonho era ver a nossa diferença de altura.

— Oh bonitona, vai lá.

Olhei para Patrícia, a pessoa mais próxima de uma amiga que eu tinha.

— Me deixa, Maionese. Me deixa. — A apelidei assim por causa do desenho Doug, uma paixão da infância.

Nessa época eu já era Ametista à noite, lucrava um bom dinheiro rebolando para estranhos, então namorados eu não tinha nem em sonho.

Fui para a cozinha e respirei fundo, ninguém sabia sobre Ametista, somente os funcionários do Burlesco. Então fingia uma falsa timidez.

Durante dois anos, essa foi minha vida, curtia minha paixão platônica pela manhã, era a coisa mais próxima que eu tinha de um amor, o vi colocar uma aliança de ouro na mão direita com tristeza e depois veio uma sensação de alívio quando o anel sumiu. Não que isso mudasse algo, a Ametista me afastava dele.

Nas noites de segunda eu ensaiava, a minha vontade de arrecadar dinheiro era tanta que não precisei de professores de pole dance, eu olhava e fazia, e amava. É um esporte maravilhoso.

Madame Bovary, a drag queen dona do Burlesco, me mimava, o sonho dela era financiar um show meu que rodasse o Brasil. Com ela aprendi a expor minha nudez, a me sentir segura ao ficar apenas de calcinha na frente de homens afoitos e velhos babões.

Tinha terminado o ensaio do número novo e me vestia quando ela entrou no camarim.

— Linda, Ametista eu tenho tanto orgulho de sua garra.

— Eu não tinha outra opção.

— Sempre há outra opção, minha rainha. Você é tão bonita e tão sozinha.

— Que homem iria me querer? — meu pensamento voou até o bonitão.

— Ih, esse olhar significa que você já tem um rapaz em vista.

— Não — desmenti — Não há ninguém.

— Ele frequenta aqui?

— Não, ele é um médico.

— Ah, um médico... Então ele não sabe sobre a Ametista?

— Ele não sabe nem sobre a Andreia.

Respirei fundo, enfiando a calça jeans. E a imagem dele veio perfeita em minha mente, ele bebendo café olhando no celular, ou lendo jornal.

— Por quê?

— Eu não tenho o direito de envolver ninguém nisso, além do mais tem a mamãe.

— Aí rainha, quantos anos?

— Minha mãe?

— Sim amada, quantos anos nesta situação?

— Quase três, muita gente disse que ela não conseguiria... — Senti meus olhos encherem de lágrimas.

— Rainha, não chore. Vamos, eu te dou uma carona.

Bovary me levou até a rua de casa, eu estava simplesmente morta, e ainda era segunda, não que na época eu tivesse folga, mas detestava as terças, se bem que aquela terça-feira foi diferente.

Eu acordei atrasada, saí quase que colocando as calças na rua, corri, peguei o metrô até a estação Santa Cecília e mal acreditei quando vi no celular que daria tempo, mesmo assim saí correndo da estação. Cheguei e cumprimentei seu Clóvis enquanto tirava o avental do bolso.

— Funcionária nova? — senti meu sangue gelar ao ouvir a voz atrás de mim, não precisava virar para saber que era ele.

— Nunca viu Andreia? Está aqui há uns dois anos...

— Oi Andreia...

Virei-me para encará-lo, oh Deus, de perto ele parecia um sonho, era impossível não sorrir ao olhar para ele.

— Oi...

— Miguel — nunca vi olhos castanhos mais lindos do que aqueles, acho que não existe — eu trabalho aqui também, não na lanchonete, no hospital.

— Eu sei...

— Você sabe? Interessante. Que tal tomar um cafezinho comigo?

— Não dá, estou em horário de trabalho.

— Que pena.

O vi sentar-se e pegar o celular, a rotina pareceu voltar ao normal, com exceção de eu estar com tesão, foi algo tão fora da minha rotina, que demorei a entender o sinal de perigo.

— Patrãozinho, cheguei. Antes tarde do que nunca.

Paty deu um sorriso e entrou. Como sempre, ela serviu Miguel, que tomou o café, deixou a gorjeta e saiu.

Confesso que fiquei decepcionada, ele sequer olhou para onde eu estava.

O dia foi corrido como geralmente era quando tinha plantão de pediatra. Por volta das seis, depois de uma hora de extra, eu só queria a minha cama; ainda bem que o Burlesco não funcionava às terças e quartas.

Estava saindo quando ouvi a voz dele próxima ao meu ouvido.

— E agora quer um cafezinho?

Virei-me para ele, que estava tão perto que pude sentir sua respiração em meu rosto.

— Não sei...

— Pode ser um refrigerante?

Era difícil pensar com ele tão próximo, acabei aceitando. Fomos até uma padaria que ficava na esquina e tomamos um café.

— Como eu nunca vi você por aqui?

— Ah, tem tanta gente naquele hospital, como conheceria uma das dezenas de garçonetes, ficamos todas iguais de uniforme.

— Não você, Andreia, você é muito bonita, com todo respeito.

— Obrigada.

Senti que ficava vermelha, era desconcertante flertar, um strip-tease para cinquenta homens era mais fácil que encarar esse único homem que mudava o tom da minha respiração, me encabulava, me afetando de um jeito inédito só de estar sentado à mesma mesa que eu.

— Antes que me pergunte, estou solteiro, não convidaria uma mulher tão bonita para um café se estivesse comprometido.

— Seu estado civil não me interessa — interessar, interessava, porém eu não devia em hipótese alguma sentir o que estava sentindo.

— Mas o seu me interessa.

Mordi o lábio superior, aquilo era tão absurdamente certo e estupidamente errado. Miguel tomou o café, sem desviar os olhos dos meus; meu pensamento era por que naquele momento?

— Solteira — me peguei respondendo.

— Que bom, porque eu passei o dia inteiro pensando em você, acho que nunca fiquei tão atraído, me desculpe ser tão direto, mas sou péssimo em demonstrar interesse.

— Hm... Eu vou nessa... Miguel né? Obrigada pelo café, foi um prazer.

— Eu te levo em casa, prometo que vou me comportar.

— Não precisa prometer nada, eu não quero sua carona.

Eu sabia que não podíamos ter nada, então apesar da atração que eu sentia, o certo era cortar aquela atração desde o princípio.

— Bonita e inacessível, tudo que um homem procura em uma mulher.

— Olha, Miguel. Por mais que eu quisesse ficar aqui falando com você, eu tenho que ir, tem um metrô lotado me esperando, e não vejo a hora de tirar este uniforme e dormir.

— No meu carro seríamos só você e eu...

— Não, passar bem.

— Me dê um beijo antes de ir?

Inclinei-me em sua direção e beijei a bochecha, e quando meus lábios tocaram a pele clara, eu senti que poderia desmaiar.

Saí da padaria, num misto de emoções, a vida era injusta, o cara que eu passei anos observando queria me levar e eu não podia aceitar. Como eu poderia me apresentar? Sou stripper, as chances de você conhecer alguém que já colocou dinheiro na minha calcinha é imensa.

Abanei a cabeça, eu não tinha escolhas sem a boate, sem o tratamento que minha mãe precisava. Nos últimos meses nem só a boate estava dando o suficiente.

— Andreia, Andreia — olhei para trás, Miguel abanava uma folha de papel — Você esqueceu isso.

Parei tentando lembrar em qual momento eu abri a bolsa, fiquei esperando por ele, peguei a folha quando ele parou perto de mim, e nela tinha uma sequência de números, que logo vi ser um telefone.

— Eu não esqueci isso...

— Estes são meus telefones.

O encarei de cenho fechado, será que ele não percebia os meus nãos?

— Você me disse que eu esqueci algo, você queria...

— E esqueceu mesmo — ele me interrompeu — Esqueceu isso.

Mal senti quando Miguel me enlaçou a cintura, me erguendo um pouco para que nossos lábios se unissem em um beijo devastador, eu nunca mais seria a mesma depois de provar o seu gosto. Entretanto, não corresponder estava fora de questão, foi como se ele tivesse acendido o estopim de uma bomba relógio que estava oculta em meu corpo.

Depois daquilo não poderia mais voltar atrás...

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