Voltei do Inferno Para Te Enterrar

A entrada do Grand Hotel era um mar caótico de luzes piscantes. O Baile de Caridade anual era o maior evento no calendário social de Sea City, um lugar onde fortunas eram ostentadas e reputações eram feitas ou destruídas.

Um elegante Rolls-Royce preto encostou no meio-fio. A multidão de paparazzi avançou, gritando nomes.

"Escudo! Escudo, aqui!"

"Sr. Escudo, a fusão vai acontecer?"

A porta se abriu, e Escudo desceu. Ele era inegavelmente bonito, com aquele tipo de mandíbula marcada e olhos melancólicos que faziam as mulheres perdoarem quase tudo. Ele ajustou as abotoaduras, parecendo incomodado com a atenção, mas alimentando-se dela.

Ele não esperou pelo manobrista. Estendeu a mão para dentro do carro.

Uma mão delicada e pálida a pegou. Brasa Miller emergiu.

Ela estava vestindo branco. Claro que estava. Era um vestido de chiffon, flutuante e inocente, quase idêntico em estilo ao que Zimbro acabara de destruir em casa. Brasa olhou para Escudo com grandes olhos de corça, interpretando perfeitamente o papel da protegida tímida.

"Você parece um anjo, Srta. Miller!" gritou um fotógrafo.

Brasa corou, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Ela se agarrou ao braço de Escudo, os nós dos dedos brancos. "Estou tão nervosa, Escudo," ela sussurrou, alto o suficiente para os microfones captarem.

"Você está bem," disse Escudo, dando tapinhas na mão dela. "Você pertence a este lugar."

Ele examinou a entrada, franzindo a testa. Zimbro ainda não estava lá. Ótimo. Talvez ela tivesse decidido ficar em casa. Ele a preferia invisível.

Outro carro parou atrás deles. Não era um carro de luxo moderno. Era um Bentley vintage dos anos 1950, verde escuro e imponente. Pertencia à propriedade da família Zimbro, um carro que não era visto em público desde que o pai de Zimbro falecera.

As portas pesadas se abriram.

Um salto agulha vermelho tocou o tapete vermelho.

A multidão silenciou. Os cliques dos obturadores pararam por uma fração de segundo, como se as próprias lentes das câmeras estivessem prendendo a respiração.

Zimbro saiu.

O vestido vermelho fluía ao redor dela como fogo líquido. Era escandaloso. Era magnífico. As costas estavam inteiramente abertas, exibindo a linha elegante e definida de sua coluna. Seu cabelo estava preso num coque severo e chique, expondo a longa coluna de seu pescoço. Seus lábios eram um corte carmesim.

Ela não olhou para baixo. Ela não sorriu nervosamente. Ela olhou para frente, o queixo erguido, irradiando um poder frio e imperioso que sugou o ar das redondezas.

"Quem... quem é aquela?" um repórter sussurrou.

"Aquela é... a Sra. Escudo?" outro respondeu, parecendo incerto.

As câmeras explodiram. Os flashes eram cegantes, uma tempestade de luz estroboscópica centrada inteiramente nela. Eles esperavam a esposa sem graça; receberam uma leoa.

Escudo virou-se com a súbita mudança no barulho. Seus olhos se arregalaram. Seu queixo literalmente caiu. Ele a encarou, incapaz de reconciliar essa visão com a mulher que geralmente usava cardigãs bege e lhe fazia chá.

O sorriso de Brasa falhou. Ela olhou para o próprio vestido branco, depois para a obra-prima carmesim de Zimbro. Ela parecia uma daminha de honra ao lado de uma rainha. Seu aperto no braço de Escudo tornou-se doloroso.

Zimbro começou a andar. Ela se movia com a graça de um predador, cada passo deliberado. Ignorou os repórteres gritando perguntas sobre seu "novo visual". Caminhou direto até Escudo e Brasa, parando apenas quando estava perto o suficiente para sentir o cheiro do perfume enjoativamente doce de Brasa.

"Você está atrasada," Escudo retrucou, a voz tensa. Ele se recuperou do choque rapidamente, substituindo-o por raiva. "E que diabos você está vestindo? Você parece... vulgar."

Zimbro o olhou de cima a baixo. Seu olhar foi desdenhoso, como se inspecionasse uma mancha numa toalha de mesa.

"Olá, marido," ela arrastou a voz. Ela virou os olhos para Brasa. "E... convidada."

Os olhos de Brasa encheram-se de lágrimas instantâneas. "Sra. Escudo, eu... eu só queria apoiar a caridade. Não quis incomodar."

"Vejo que está vestindo branco," observou Zimbro, a voz plana. "Tentando salvar uma reputação que não existe?"

Os repórteres próximos engasgaram. Eles se inclinaram, famintos pelo drama.

"Zimbro!" sibilou Escudo, colocando-se entre elas. "Peça desculpas. Agora. Você está fazendo uma cena."

"Eu nem comecei a fazer uma cena, Escudo," disse Zimbro suavemente. Ela se inclinou mais para perto dele, seus lábios vermelhos curvando-se num sorriso de escárnio. "Eu não queria combinar com o seu caso de caridade. Confunde os doadores."

"Ela é uma aluna bolsista da Fundação Escudo!" argumentou Escudo, o rosto ficando vermelho.

"Então talvez ela devesse estudar mais e socializar menos," rebateu Zimbro. Ela o contornou suavemente. "Sai da frente. Estou aqui para gastar dinheiro, não para perder tempo com melodrama barato."

Ela passou por eles, a seda de seu vestido sussurrando contra o terno de Escudo. Deixou-o ali, fumegando, impotente em sua fúria.

No segundo andar, no camarote VIP sombreado com vista para o grande salão, um homem estava sentado numa poltrona de couro. Ele segurava um copo de uísque âmbar, o gelo tilintando suavemente.

"Caramba," assobiou um jovem ao lado dele. Trevo inclinou-se sobre o parapeito. "Aquela é a garota Zimbro? Aquela que todos dizem ser um capacho?"

O homem na cadeira não respondeu imediatamente. Cardo inclinou-se para frente, as sombras recuando de seus traços marcantes. Ele tinha olhos da cor de um mar tempestuoso - cinzas, turbulentos e inteligentes. Ele era o pária da família Trovão, a perigosa "ovelha negra" que controlava o submundo da cidade enquanto seus primos brincavam em salas de reuniões.

Ele assistiu a mulher de vermelho cortar a multidão como uma faca. Viu a maneira como ela mantinha os ombros - tensos, mas fortes. Viu a fúria vibrando nela.

"Ela não é um capacho," murmurou Cardo, sua voz um estrondo baixo que vibrou em seu peito. "Ela é uma bomba prestes a explodir."

Zimbro parou na entrada do salão de baile. Ela sentiu um olhar sobre si. Um peso físico na nuca. Ela olhou para cima, examinando a varanda.

Seus olhos se encontraram com os de Cardo.

A distância os separava, mas a conexão foi instantânea e elétrica. Ele ergueu o copo para ela numa saudação zombeteira.

Zimbro não sorriu. Ela sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que o polido, reconhecendo-o. Eu vejo você observando, seus olhos disseram.

Ela se virou e entrou no baile. Seu coração estava acelerado, batendo contra as costelas. Cardo. Em sua vida passada, ele era um mito, uma sombra que eventualmente tomou a cidade depois que os Escudo caíram. Ela nunca havia falado com ele.

Mas nesta vida... nesta vida, ela precisaria de um monstro para matar outro monstro.

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