Meus olhos se abrem lentamente, minha cabeça doía de forma que eu não conseguia manter meus olhos abertos. Sinto que meu corpo se movimentava na água do rio, mas haviam braços me segurando.
— Fique acordada, irei te levar para um hospital. — A voz grossa ecoava em minha mente enquanto tentei focar no rosto do homem que me carregava para fora do rio. Fechei meus olhos tentando suportar a pressão no corpo e na cabeça. Abro-os sentindo meu corpo sacolejar, tento de novo focar meu olhar, mas nada do que o vazio, imagens torcidas. Fechei os novamente.
— Está tudo bem? Fale comigo... Fique acordada! — A mesma figura e a mesma voz, tentei me comunicar. Senti ser colocada em cima de algo e ser locomovida, flashes de luz passavam pelas minhas pálpebras e algumas pessoas conversavam junto com a voz masculina.
— Onde a encontrou senhor? — Uma voz feminina, meu corpo sacolejou.
— Na beira do rio... — Perdi o foco e novamente fechei os olhos.
— Dr, a paciente já havia sido operada. — Não conseguia abrir meus olhos.
— Deixe-me ver... — Forcei meus olhos abrir de novo, por alguns segundos ficaram abertos e fecharam novamente.
— Doutor, a paciente está com os batimentos acelerados!
— Está convulsionando! Prepare o tubo de oxigênio, precisamos induzir. — Senti meu nariz arder como se eu estivesse respirando água, ao mesmo tempo meu corpo se debatia na medida em que o vômito passava pelos meus aparelhos digestivos.
— Rápido! Estamos a perdendo! — Aos poucos me senti sem ar, sem motivo algum ao quê me agarrar.
— Doutor, os pulsos estão ficando fracos!
— Preparem 2/6 de Adrenalina. — As vozes ficavam cada vez mais baixas, senti minha essência esvair-se e aos poucos se tornar um nada.
Paz.
🌹🌹🌹
— Filha? Você está aqui minha filha?
— Mamãe? É você mamãe? — Senti meu corpo sacolejar e uma eletricidade percorrer por tudo. Ouvi risadas de uma garotinha de cabelos negros que corria livre por um campo. Linda! Talvez com seus cinco anos. Seus olhos azuis reluzentes eram perfeitos e ela dançava e rodopiava descalça sobre a grama molhada. Seu sorriso era encantador!
— Oi. — Ela parou em minha frente, sorridente.
— Oi. — Respondi confusa.
— Você é feliz? — Ela segurou em minha mão e nós duas sentamos sobre a grama.
— Talvez. — Eu era feliz? Um dia eu fui feliz, antes de meus pais me largarem a sorte, eu era...
— No que está pensando? — Olho para a garotinha e ela segurava seu ursinho rosa. Não me assustei por ela saber meu nome, bom acho que temos muito em comum.
— Na vida. Ela é complicada... — Sorri sentindo o amargo subir até minha boca.
— Hum. — Ela continuava a brincar com o ursinho. - Sabe, a vida nunca foi fácil. Suspirei, por ela ser tão pequena, sabia de coisas que só eu poderia saber... Talvez ela seja eu mesma.
— Quer ver uma coisa legal? — Ela me puxou para levantar e a segui até o balanço também da cor rosa. Uma borboleta azul pousa nos cabelos dela e fico admirando-a balançar e a borboleta não voar, como se fosse apenas um enfeites de cabelo.
— Será que meus pais me amam? — Sou surpreendida com ela quase chorando. Tentei encontrar alguma resposta, mas não havia nada além de se consolar.
— Eu não sei... — Bufo chutando umas pedras sobre a areia.
— É que eles sempre brigam quando pensam que estou dormindo.
— Bom, adultos brigam o tempo todo. -—Dou de ombros, sentindo um frio percorrer todo o meu corpo. Meus pais também brigavam pela casa, as vezes eu ficava quieta no canto do quarto com as mãos nos ouvidos.
— Ei! -— Olho para o balanço vazio e procuro pela menina.
— Onde você foi parar?! — Meu peito se aperta com uma sensação ruim. Ando pelo campo inteiro até chegar em uma estrada deserta. Sigo ela sentindo que algo estava errado.
— Tem alguém ai? — Novamente a sensação de estar em perigo, um aperto no coração. Viro as costas para olhar o campo de longe, ao voltar para a frente noto uma cabana velha e abandonada.
— Filha? É você? — Escuto a voz ecoar de dentro da casa e os gritos da garotinha ao fundo pedindo socorro.
— Não! — Corri até a casa, entrei nela não vendo nada além de poeira e móveis quebrados. Andei pela casa ainda ouvindo a garotinha chorar.
— Filha? É você? — Minha mãe gritava desesperada. Subi as escadas as pressas, dou de frente para um corredor escuro e no final havia uma porta aberta. Meus passos se tornaram cautelosos, a garotinha havia parado de chorar e eu apenas sentia meu coração bater.
Lento e calmo...
Meu medo reagindo nos poros e eriçando os pelos do meu corpo, fazendo com que meu coração batesse mais lento.
Calmo e lentamente...
Meus pés rangendo ao pisar no piso de madeira, minhas pernas trêmulas, minha respiração calma. Aos poucos me aproximava, aos gradualmente, meu corpo ficava mais sem controle. O suor frio já se encontrava presente em minha coluna quando encostei minha mão na maçaneta...
— Olá? Tem alguém...
A garotinha estava pendurada pelos pés. Em sua boca saia um líquido vermelho, seus olhos estavam abertos minando lágrimas.
— Não!
— Filha é você? — A voz que antes era de minha mãe, agora é de meu pai, e se tornava mais perto, junto a passos de fora do cômodo.
— Desculpa Violet. — A garotinha gemeu fechando os olhos.
— Não consegui evitar... Ele está vindo... — Senti minha garganta queimar, os lábios secarem.
— De quem você está falando? — Porquê ela estava aqui? Porquê estou aqui? Porquê não consigo me lembrar de mais nada? Ou de ter chego neste lugar? Tudo está fugindo de mim.
— Achei você! — Era meu pai! Ele estava sujo de sangue, seus olhos fundos e negros. Seu rosto magro e o corpo ressequido, ele segurava uma faca e sorria macabro para mim.
— Fu…ja! — A garotinha disse dando seu último suspiro, o homem que era meu pai distorcido acerta a faca em meu peito. Cai no chão tentando estancar o sangue que jorrava do ferimento.
— Está feito. — Ele riu de forma fria, enquanto me via desfalecer aos seus pés. Meu corpo amolece e minha visão se apaga.





