Vingança Tem Sabor Baunilha

Tia Isabel bloqueou o caminho de Sofia até a porta, cruzando os braços com um ar de superioridade.

"Você não vai a lugar nenhum nesse estado. O que os vizinhos vão pensar?" , disse ela, a preocupação em sua voz soando completamente falsa. Era apenas sobre aparências, como sempre.

"Saia da minha frente" , disse Sofia, a voz baixa e perigosa.

Isabel riu, um som desagradável que ecoou na sala tensa.

"Ou o quê? Você vai fazer o quê? Você não passa de uma garota assustada com um rosto estragado. Acha mesmo que o Lucas vai querer ficar com você agora? Sem o bebê e com essa sua cara? Ele é um chef promissor, pode ter qualquer uma."

A crueldade das palavras era calculada para quebrar o pouco de força que restava a Sofia. E por um momento, quase funcionou. A menção ao seu rosto, a dúvida sobre o amor de Lucas, tudo atingiu os pontos mais vulneráveis.

Mas a dor física e a perda avassaladora haviam criado algo novo dentro dela: uma calma fria, uma clareza cortante. O choque a protegia, como uma camada de gelo sobre um lago profundo e turbulento.

Ela olhou para a tia, o rosto inexpressivo. Não havia lágrimas, nem raiva visível. Apenas um vazio.

"Você tem razão" , disse Sofia, surpreendendo a si mesma com a firmeza de sua voz. "Você é a dona desta casa. Sua mãe era a grande confeiteira. Vocês são tudo."

Ela fez uma pausa, o olhar fixo no de Isabel.

"E eu não sou nada. Por isso, estou saindo. O nada não ocupa espaço."

A sinceridade sombria de sua concordância pegou Isabel de surpresa. A tia esperava uma briga, lágrimas, um colapso. Ela não estava preparada para essa aceitação fria e lógica. Por um segundo, a máscara de confiança de Isabel vacilou. Ela abriu a boca para dizer algo, mas nenhuma palavra saiu.

Sofia aproveitou aquele breve momento de hesitação.

Ela não tentou passar pela tia. Em vez disso, deu meia-volta e começou a caminhar, lenta e deliberadamente, em direção ao corredor que levava ao seu pequeno quarto nos fundos da casa. Cada passo era uma batalha contra a dor que pulsava em seu ventre, mas ela se recusava a vacilar na frente deles.

Ela precisava de sua bolsa. Seu telefone. Qualquer coisa que fosse sua.

O som de seus passos era o único ruído na sala, um ritmo lento e doloroso que marcava sua retirada. Ela não olhou para trás. Não olhou para Lucas, que agora estava de pé, paralisado entre a preocupação com ela e a influência de sua família. Não olhou para sua avó, cujos soluços silenciosos eram uma faca em seu coração já partido.

Ela apenas caminhou, focada em seu objetivo.

Ao chegar à porta de seu quarto, a força que a mantinha de pé finalmente cedeu. Suas pernas fraquejaram e suas mãos tremeram enquanto ela se apoiava no batente. A visão ficou turva e o som da sala se tornou um zumbido distante.

Uma das empregadas da casa, uma senhora chamada Lúcia que sempre fora gentil com ela, correu para ampará-la.

"Menina Sofia! Você está pálida como cera!" , exclamou Lúcia, o pânico em sua voz. "Precisamos de um médico, agora!"

Sofia desabou nos braços de Lúcia, o corpo finalmente se entregando à dor e à exaustão. A última coisa que ela viu antes de a escuridão a engolir foi o rosto de sua tia Isabel, observando de longe, com uma expressão de triunfo sombrio.

Ela havia vencido. Por enquanto.

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