"Grávida de sete meses, Duda, você tem certeza?"
A voz de Lucas soava preocupada do outro lado da linha, mas eu sabia que era puro teatro.
"Tenho, Lucas. É a única maneira. O médico disse que seus rins estão falhando. Você precisa de um transplante urgente."
Eu estava no hospital, sentada em uma cadeira de plástico fria, com a mão protetoramente sobre minha barriga enorme. Meu bebê, nosso filho, se mexia dentro de mim, alheio à decisão que eu estava prestes a tomar por seu pai.
"Induzir o parto agora... é perigoso para você e para o bebê."
"Mais perigoso é você morrer" , respondi, com a voz firme. "Eu sou compatível. Meu rim pode salvar sua vida. Não existe outra opção."
Houve um silêncio calculado do outro lado. Eu podia imaginá-lo, com seu rosto perfeitamente esculpido, fingindo uma angústia que não sentia.
"Eu te amo, Duda."
"Eu também te amo, Luca" , murmurei, e desliguei.
Naquele momento, eu realmente o amava. Amava o homem que, três anos antes, me salvou de um ataque em um beco escuro. O homem que me consolou após três abortos espontâneos devastadores. O homem por quem eu estava disposta a arriscar minha vida e a do nosso filho.
A indução foi rápida e dolorosa. A cirurgia de remoção do meu rim veio logo em seguida.
Acordei grogue, com o corpo gritando de dor em dois lugares distintos. A sala estava escura, mas a porta estava entreaberta, deixando entrar um feixe de luz e vozes.
Eram Lucas e seu melhor amigo, Pedro.
"Ela é uma idiota mesmo" , a voz de Pedro era um sussurro sádico. "Entregou o rim de bandeja, e o pirralho também."
"Cale a boca, ela pode acordar." A voz de Lucas era baixa, mas carregava uma satisfação cruel.
"E daí? Ela precisa saber o quão estúpida foi. Achar que você a amava... depois do que ela fez com a Sofia."
Meu coração parou. Sofia. A ex-namorada de Lucas, que supostamente havia se matado de depressão depois que eu ganhei um concurso de arte do qual nós duas participamos.
"Aquele rim era o mínimo que ela me devia" , continuou Lucas. "Depois de me fazer acreditar por três anos que a mulher da minha vida estava morta por culpa dela."
A anestesia parecia se dissipar, substituída por um gelo que se espalhava pelas minhas veias.
"E os outros três pirralhos que ela perdeu? Obra sua também, né? Aqueles chazinhos que você dava pra ela... gênio do mal" , riu Pedro.
As perdas. Meus filhos. Não foram acidentes. Foram assassinatos.
"Tudo foi planejado, Pedro. Desde o resgate no beco. Três anos. Três anos para destruir tudo o que ela tinha. Agora, falta só o golpe final. Vou tirar o útero dela na próxima cirurgia, culpando uma 'complicação' . E no nosso noivado, vou revelar a todos quem ela realmente é. A mulher que matou minha Sofia."
Um soluço engasgado subiu pela minha garganta, mas eu o sufoquei.
O mundo que eu conhecia se desintegrou. O amor, a dor, os sacrifícios... tudo uma farsa. Uma vingança doentia por algo que eu nunca fiz.
Eu não era uma vítima. Eu era um alvo. E ele não ia parar com um rim. Ele queria meus órgãos, minha reputação, minha vida.
Naquele leito de hospital, com o corpo mutilado e o coração em pedaços, uma nova sensação nasceu em meio ao desespero. Não era tristeza. Era ódio.
Um ódio frio e calculista.
Eu não ia morrer. Eu ia fugir. E eu ia me vingar.
Quando Lucas entrou no quarto alguns minutos depois, com um sorriso preocupado e um buquê de flores, eu forcei um sorriso fraco.
"Meu amor... como você está se sentindo?"
Eu olhei para o rosto do monstro que eu amava e sussurrei, com a voz rouca de dor e mentiras:
"Cansada. Mas feliz por você estar bem."
Ele não viu a promessa de morte em meus olhos.





