Não dormi naquela noite. Fiquei sentado na poltrona do nosso quarto, olhando para a cama vazia, e depois para a porta, esperando ela voltar. Quando finalmente entrou, na ponta dos pés, fingiu surpresa ao me ver acordado.
"Lucas? Perdeu o sono, amor?", ela perguntou, a voz suave e preocupada.
Apenas a encarei. O cheiro do perfume de Pedro estava nela. Um perfume caro que meu pai lhe deu de aniversário. Eu me senti um idiota. Um palhaço.
Passei o dia seguinte em um nevoeiro de dor e raiva. Cada palavra dela, cada toque, era como veneno. Ela continuava a desempenhar o papel da esposa dedicada, me trazendo café, perguntando como eu estava, enquanto eu só conseguia ver a imagem dela nos braços do meu irmão.
A pressão da família não parou. Minha mãe me ligou.
"Filho, seja compreensivo. Pedro está sofrendo tanto."
"E eu?", eu quis gritar. "E a minha dor? Ninguém se importa?"
Mas eu não disse nada. Apenas desliguei.
Sofia, percebendo meu silêncio, tentou se aproximar.
"Eu sei que está sendo difícil para você, Lucas. Mas nós vamos superar isso juntos. Eu e você."
Ela segurou meu rosto entre as mãos, os olhos cheios de uma falsa sinceridade. Senti vontade de vomitar.
Nos dias que se seguiram, a farsa continuou. Em público, Sofia era a esposa que defendia ferozmente seu casamento. Em particular, eu sabia que ela encontrava maneiras de se encontrar com Pedro. Uma vez, ela disse que ia ao shopping com uma amiga. Usei o rastreador do carro e a vi parada em frente a um motel de beira de estrada por duas horas. O mesmo motel onde Pedro disse que ia "esclarecer a cabeça".
Eu comecei a definhar. Não comia direito. Mal dormia. As olheiras escuras sob meus olhos eram um testemunho constante da minha agonia. No trabalho, eu não conseguia me concentrar. Perdi um cliente importante.
Pedro, por outro lado, parecia florescer em meio ao seu "luto". Ele tinha um brilho nos olhos, um ar de satisfação. A dor da perda de sua esposa parecia ter sido substituída pela emoção do romance proibido.
Um dia, meu pai me chamou ao seu escritório.
"Lucas, olhe para você. Está um trapo. Tudo isso por egoísmo. Seu irmão precisa de apoio, e você só pensa em si mesmo. Sofia é uma mulher muito mais sensata que você."
A raiva me sufocou. Eu queria gritar a verdade na cara dele. Queria expor o filho perfeito e a nora maravilhosa. Mas a humilhação me paralisou. A verdade era tão suja, tão vergonhosa, que eu não conseguia pronunciá-la.
Eu estava preso.
Decidi que precisava sair. Sair daquela casa, daquela cidade, daquela família. Comecei a procurar empregos no exterior, qualquer coisa que me levasse para longe daquela toxicidade. Encontrei uma vaga em uma empresa de design em Portugal. Era perfeito.
Eu estava finalizando os preparativos para o divórcio, juntando provas, planejando minha fuga silenciosa, quando Sofia chegou em casa uma noite, com um sorriso radiante no rosto.
Ela segurava um pequeno teste de farmácia branco.
"Lucas...", ela disse, com lágrimas nos olhos. Lágrimas de alegria, eu supus. "Nós vamos ter um bebê. Eu estou grávida."
Meu coração parou. Grávida. Olhei para a barriga dela, e o único pensamento que tive foi: o filho é de Pedro. Ela estava me aprisionando ainda mais naquela mentira.





