Por que diabos essa menina tem celular se nunca atende? Esbravejo após ligar pela terceira vez para a minha filha.
- Ela deve estar dormindo, meu bem...
- Dormindo a essa hora? Ela já deveria estar na loja... As mercadorias novas que eu comprei já chegaram. O motorista me disse que, pelas regras da transportadora, por serem de alto valor, só podem fazer a entrega para a pessoa que está com o nome na nota. Senão, eu mesmo ia lá receber. Inclusive, a Raiane já chegou e também não pode fazer nada.
- Talvez ela tenha esquecido o celular em casa, mas já esteja chegando na loja.
- Não adianta proteger, Lene... Eu falei desde o começo que eu não queria a Emília morando sozinha, ainda mais tão longe, mas você deu força.
- Eu não dei força, amor. Só disse que ela já tem 25 anos... Até quando você achava que conseguiria mantê-la debaixo das suas asas? Além disso, não é tão longe assim.
- É do outro lado da cidade, criatura! Era muito melhor quando ela estava só do outro lado do corredor daqui de casa... E, sobre mantê-la debaixo das minhas asas, se depender de mim, ela só sai da minha proteção quando eu morrer... Você sabe muito bem que eu devo isso a ela e também ao Henrique.
- Jorge, você precisa parar de se culpar pelo que aconteceu. Não foi sua culpa.
- Minha obrigação, como braço direito do El Chapo, era manter ele e a família em segurança... mas não. Eu bebi demais e dormi.
- Vou repetir o que venho falando durante todos esses anos... Você pelo menos conseguiu salvar a Emília!
- Se ela tivesse morrido, eu nunca me perdoaria.
- Todos os membros de um cartel sabem que estão sujeitos à morte. Com o Henrique não era diferente... Pelo que você me contou, já era de se esperar o ataque, depois do que ele fez com seus rivais.
- Exatamente aí que falhei... O ataque era certo, mas eu estava bêbado. Não verifiquei a segurança, não estava de prontidão. Quando acordei, os tiros já vinham da suíte do casal. Tudo que pude fazer foi correr até o quarto da pequena e fugir pelos fundos.
- Se eu fosse a mãe da Emília, te agradeceria de onde quer que eu estivesse por ter salvado a menina.
- Você é a mãe dela... E eu sou o pai! Não devíamos nem ter entrado nesse assunto. Ela é nossa filha, e ponto.
- Lógico que eu sou a mãe dela! Eu disse "se eu fosse", no sentido da Alba ter morrido, mas a filha ter ficado viva graças a você.
- Amor, sua visão sempre puxa para o lado bom... mas a verdade é que, se eu não tivesse falhado como homem de confiança, braço direito, melhor amigo do Henrique e irmão da Alba, minha afilhada não teria ficado órfã de pai e mãe.
- Mas você não falhou como tio, padrinho e muito menos como pai dela! Você é o melhor pai do mundo para essa menina... Seu amor por ela é coisa de outra dimensão.
- Ela é meu único laço de sangue com a minha irmã... e, sim, o meu amor por ela vai além desta vida.
Tento ligar novamente. Dessa vez, ela atende.
- Onde você está, filha?
- Bom dia para o senhor também, pai... Em casa. Estava tomando banho, acordei um pouco atrasada.
- Um pouco? Pelo amor de Deus, Emília! Você lembra que dia da semana é hoje?
- Hoje é... Caralho, pai, hoje é quarta! A mercadoria... Eu esqueci.
- Então corre... Eu te avisei que só entregariam para a pessoa com o nome na nota, e você me dá uma dessas! Daqui a pouco o motorista vai embora, aí quero ver.
- Desculpa, pai... Tchau, preciso ir... Te amo.
- Eu também te amo - respondo, mas já estou falando sozinho.
- Pronto, meu amor, pode relaxar agora... Ela está bem, só se atrasou!
Permaneço sério, sem responder.
- Eu te conheço, Jorge... Você não está só preocupado com a mercadoria, não é?
- Não...
- Então com o quê? Faz tempo que você está assim, inquieto com a Emília... Você acha que, depois de tantos anos, ela ainda corre perigo?
- Não... Eu apaguei muito bem nossos rastros. Além disso, não há motivo para que alguém de lá queira fazer mal à Emília. Ela era só uma criança... nem sabe quem realmente foi o pai. A única coisa que poderia trazer perigo seria se alguém descobrisse aquele cofre de armas que eu e o Henrique escondemos, só abre com a digital dela. Mas só nós dois sabíamos disso. Então não há com o que se preocupar.
- Então o que está te deixando assim?
- Estou achando que o responsável por esses atrasos dela tem nome de homem...
- E qual o problema? Nossa filha já namorou outras vezes...
- Sim. E em todas elas ela nos contou! Desde o primeiro beijinho na escola, com 14 anos... Agora está escondendo. Por quê?
- Você nem sabe se tem alguém e já está tratando como certeza...
- Tenho, sim! Conheço minha filha melhor do que a mim mesmo. Tem homem nesses atrasos - só não sei quem é ainda... mas vou descobrir.
- Talvez não seja nada sério...
- Eu acho que é sério demais. Por isso ela não quer que eu saiba.
- Você acha que ela está namorando?
- Acho que o cara não vai nos agradar. Na verdade, não vai me agradar...Porque você passa demais a mão na cabeça dela.
- Não é isso... Só acho que você quer controlá-la demais.
- Eu quero o melhor para minha filha... Não queria chegar a esse ponto, mas não vai ter outro jeito.
- Que jeito? Ela pergunta, desconfiada.
- Vou subornar os porteiros. Quando aparecer homem lá, eles me avisam... eu pego em flagrante.
- Você não falou isso... Vou fingir que não ouvi.
- Falei, e vou fazer. Inclusive, vou aproveitar que ela foi para a loja e passar no prédio dela para trocar uma ideia com o Fernando. À noite, falo com o Jonas também.
- Se a Emília descobre, você sabe, né?
- Não estou nem aí... O que importa é que nenhum vagabundo chegue perto da minha menina. E, se ela está escondendo de mim, é porque coisa boa não é.
Pego as chaves, já decidido a ir lá subornar o porteiro.





