Victõria, Com amor irei lhe matar

O sangue que escorria do corte em sua barriga, misturado a terra e a neve que grudavam ao seu corpo lhe dava um ar imundo, quase desprezível, enquanto ela cambaleava entre os galhos e espinheiros da floresta; uma dor excruciante parecia envolver cada músculo de seu corpo e sua cabeça latejava manchando de um tom avermelhado sua visão.

Irina ainda podia ouvir os gritos agonizantes de suas irmãs ressoando em seus ouvidos. Não sabia por quanto tempo correra, ou se ainda estava sendo perseguida, mas sentia o cheiro adocicado de carne incendiada e via a fumaça espiralando ao seu redor; parecia sufocá-la, ainda mais sabendo que o combustível disso eram suas irmãs, sabendo que tudo o que ela mais amava... se dissolvera em cinzas e gordura queimada.

Ela queria esquecer, queria deixar de existir por ao menos um segundo, sabia que era culpa dela, que era a única culpada por todas as mortes que haviam ocorrido naquele dia; e o que lhe dava mais ódio de si era o fato de seu estômago vazio revirar de fome com aquele aroma de carne, como ela era capaz de sequer pensar em fome quando todos que ela amava estavam mortos? Pior ainda; como o cheiro das entranhas queimadas daqueles que lhe eram mais queridos podiam lhe fazer salivar de desejo?

Mas a dor que mais lhe corroía não era a de seus músculos inúmeras vezes perfurados por agulhas ou facas, nem a do corte profundo em seu ventre e tampouco a da pele que lhe faltava em alguns membros, mas a da culpa. Sentia que não poderia haver ser mais repudiante do que ela mesma; um ser que destruiu sozinho, tudo o que poderia ter sido.

Sentia a beladona ainda em suas veias, a queimava por dentro enquanto ela lutava para pôr um pé em frente ao outro, foi quando tropeçou em um emaranhado de raízes e caiu em uma trilha escondida por arbustos, era uma descida bem íngreme e coberta de neve, seu corpo desceu rolando e batendo em algumas árvores e pedras, sem forças para se firmar; no fim da queda, ela foi lançada sobre uma grande rocha pontiaguda que a rebateu de costas contra um espinheiro.

Seus músculos já não respondiam normalmente, de forma que ela não foi capaz de gritar em momento algum, estava completamente exaurida e ao sentir os espinhos se cravarem em suas costas e braços, simplesmente se deixou recostar ali; era o mais longe que conseguiria ir de qualquer forma.

Ainda assim, por mais que desejasse, não era capaz de se entregar à inconsciência, o frio agudo parecia lhe intensificar a dor e sua garganta ardia na vontade infindável de gritar até que o mundo deixasse de existir. Mas ela não se moveu, seu rosto se tornou relaxado e inexpressivo enquanto sua alma queimava em agonia.

A floresta estava num silêncio gritante agora que não havia mais o som de seus passos ou respiração acelerada, e uma agonia praticamente tangível parecia emanar de Irina, sua respiração saía fraca, quase ausente, o mundo parecia espiralar ao seu redor de forma confusa.

Então passos firmes começaram a ressoar ao longe, num ritmo familiar, ela sabia que aquelas botas pesadas que quebravam os galhos da trilha pela qual caíra só poderiam pertencer à uma única pessoa, a mesma que viera lhe torturando há semanas…

Quando aquela forma alta se pôs diante dela, já não restavam-lhe mais forças para gritar, correr, ou para qualquer coisa, Irina apenas levantou os olhos e fitou o homem que um dia, jurara amar por toda a eternidade.

Hoje, esses momentos de amor infinito pareciam ter sido há muitos séculos, todo o amor que sentia misturava-se ao ódio e a dor da traição que queimavam muito mais que o veneno em suas veias, seu coração se acelerou de uma forma audível, os batimentos fortes enchiam os ouvidos de Irina e uma vertigem repentina turvou sua visão.

Dieggo usava botas de caça novas e polidas, calças de couro tão justas que delineavam cada músculo de suas pernas e uma camisa de algodão cru, finamente costurada, que agora estava manchada de sangue inocente, o sangue daqueles que ela mais amava… as pessoas que haviam morrido por culpa dela.

Irina sentia falta de seu poder, sentia falta de ser a feiticeira que ela sempre fora, se fosse em outro momento, qualquer ser vivo se curvaria diante de sua majestosidade e força, ela era divina, desejada por todos os homens e mulheres dos oito reinos, além de temida e invejada por qualquer humano que a conhecesse, ela desfrutava bem disso, sabia usar com sabedoria e equilíbrio, a mais bela, a mais poderosa, a mais perfeita, praticamente uma deusa na terra; sua pessoa e seus feitos eram lendários, foi a única responsável por unir os oito reinos do vale da Lua, a vencedora da Grande Batalha, e a feiticeira escolhida do rei, mas agora, ferida, sem sua magia, imunda, vestida em trapos rasgados e jogada entre espinheiros… Ela não passava de uma mulher indefesa, digna de pena, manchando a imagem de toda a sua história.

-Te encontrei minha cara… - A voz de Dieggo era fria, não trazia nenhum único sentimento, seus olhos castanhos profundos mandavam choques eléctricos diretamente à alma da garota, que sentiu uma dor aguda no peito ao ouvir aquele tom rouco e decidido - Não parece a bruxa das lendas… Parece... Uma pedinte leprosa!

Ao cuspir estas palavras ele soltou um riso irônico profundo que fez cada pelo do corpo dela se arrepiar, um ódio imenso preencheu todo seu ser e uma força descomunal a invadiu novamente.

Irina se pôs de pé em poucos segundos, o homem desprevenido deu alguns passos para trás e foi o que ela precisou para segurar seu pescoço e prendê-lo contra uma árvore, chutando a espada para longe.

Mas ele não se abalou, riu com o ar que lhe restava e então estalou os dedos, começaram a descer a trilha dois guardas completamente armados, acompanhados por Taíssa, ela o soltou imediatamente, preocupada com o que fariam a sua amiga.

Foi no mesmo instante que notou, não haviam algemas, não haviam correntes, e os guardas apontavam as lanças para Irina, andando lado a lado com Taíssa; Os sonhos… ela já sabia o que estava acontecendo! Ela já sabia há semanas, só que se recusava a acreditar…

- Vocês estão juntos! Vocês dois me traíram!

Não era uma pergunta, ela tinha certeza do que estava acontecendo, dizer em voz alta fez com que tudo parecesse bem mais real, ela deixou que a dor e o choque a percorressem enquanto Taíssa ria e caminhava até os braços de Dieggo, e lhe dava um beijo teatral na boca.

- Você demorou tanto pra notar Irina… Enquanto você teve que esgotar seus poderes para que ele estivesse com você em troca de seus favores… era para mim que ele vinha todas as noites em que sumia do palácio, sempre fui eu, você era apenas um meio para que ele pudesse chegar onde queria… Comigo.

Mas Taíssa não fazia ideia do efeito de suas palavras… Todo o torpor sumiu de Irina, e pela primeira vez desde que começaram a lhe ser ministradas as doses do veneno, ela sentiu o poder fluir por suas veias, alimentado pelo ódio mais puro e cru, de imediato suas feridas se curaram, e uma brisa morna invadiu todo o ambiente, fazendo com que seus cabelos emaranhados e vestes rasgadas esvoaçassem ao seu redor.

As expressões de escárnio de todos ali se transmutaram de imediato para o medo, o sorriso de Dieggo vacilou, os guardas que traziam um semblante calmo arregalaram os olhos e começaram a correr de volta pela trilha de onde haviam vindo, foi a coisa mais inteligente que poderiam ter feito...

Taíssa soltou os braços do homem de ombros largos e a encarou embasbacada.

Dieggo teve o semblante trespassado pelo choque, mas logo assumiu novamente o tom malicioso e se pôs em frente a Taíssa.

- Não machuque ela... Por favor...

Seu tom era confiante apesar de implorador, ele tinha certeza de que se usasse as palavras corretas Irina faria aquilo que ele quisesse, afinal, havia sido assim por anos.

Os olhos de Irina rebrilharam em um tom vermelho vivo, e ela sorriu, a risada mais doce escapando por entre seus lábios.

- Eu não vou… é você quem vai!

Pela primeira vez Dieggo parecia completamente indefeso, era possível ver que ela não mudaria de ideia, ela o encarava com uma frieza profunda, um olhar que era reservado somente aos seus inimigos, e não havia dúvidas, o que quer que fosse acontecer, seria Irina quem guiaria. E ela não costumava ter clemência.

Em questão de segundos o semblante dele foi para um pavor intenso, ele nunca imaginou que seria o destino de sua fúria, mas sabia que era inevitável, Irina era famosa por um motivo, e não foi com doçura e perdão que conquistou seu nome…

Trepadeiras começaram a crescer aos pés de Taíssa que lutava para tentar correr, a imobilizando, ela gritava palavras ininteligíveis, seus dedos soltavam faíscas contra as raízes que subiam por seu corpo... Mas era em vão. A magia de Irina era mais forte do que a de qualquer bruxa existente.

Dieggo gritou de pavor quando seu corpo começou a se mover em direção à espada, seus braços se guiando contra sua vontade, não havia como ele controlar seu próprio corpo, seus músculos eram movidos por algo muito mais forte que própria sua vontade.

- Por favor! Irina! Por favor, meu amor! Não faça isso! - Ele implorava em desespero, mas Irina não vacilou por um único segundo, suas mãos se moviam em direção a Dieggo como se movesse uma marionete, os olhos vermelhos como o sangue mais vivo, ela fechou as mãos num rompante.

E com um único golpe Dieggo arrancou a cabeça de Taíssa.

- NÃO! – Ele gritou sem acreditar no que suas próprias mãos haviam feito.

Irina ria efusivamente vendo a cena diante dela, Dieggo não controlava mais a si mesmo. Ele faria o que ela mandasse. Ele era dela. Assim como todos sempre haviam sido.

Mas ela abriu mão disso, cortando as cordas invisíveis com um acenar dos dedos.

Queria ver o que ele faria, queria saborear cada segundo de sua dor, ele lançou a espada ao chão e caiu de joelhos aos seus pés, segurando a barra do vestido rasgado.

- Você não me mataria não é? Não machucaria o seu amor verdadeiro? Você sabe que tudo o que fiz foi por amar você, e saber que jamais poderíamos pertencer um ao outro não é?

O coração de Irina vacilou, ela o amava… foi quando as últimas semanas encheram sua mente novamente a lembrando da realidade, ela tinha certeza de que eram mentiras que saíam daqueles lábios tão macios, foi com pesar, que proferiu suas próximas palavras.

- Não, não vou te matar, eu vou te amaldiçoar, meu único e verdadeiro amor.

Ele empalideceu de imediato.

- Não! Não pode fazer isso!

Isso era impensável, se ela o amaldiçoasse ele poderia esperar o pior dos destinos imagináveis para si. O desespero o dominou, enchendo-o de coragem, ele teria de lutar. A única solução seria matá-la antes que qualquer outra palavra saísse daqueles lábios.

Ele pegou novamente a espada e se lançou contra ela, logo antes de ficar paralisado no ar, os olhos arregalados e chorosos, uma maldição, de Irina, ele com certeza deveria preferir morrer a qualquer coisa que viria a seguir.

- Por favor, não me amaldiçoe amor, nós podemos resolver tudo isso, podemos conversar, eu sei que errei mas foi pelo amor que sentia por você. Nós podemos ficar juntos, podemos mudar tudo isso. Irina, minha doce Irina, minha Deusa, me deixe consertar as coisas…

Sua voz tremia de maneira absurda, e a postura, paralisada com a espada a centímetros do pescoço da feiticeira, não ajudava a dar veracidade ao que dizia.

- Dieggo… ah Dieggo…

Você ousou roubar meu coração…

E usou ele para destruir tudo o que mais amei…

O que seria mais adequado?

- Por favor meu amor, tenha piedade.

Ele chorava, lágrimas escorriam incessantemente por seu rosto enquanto imaginava qual seria seu fim.

- Você Dieggo

Há de ver a morte de todos que amar

Mas seria muito simples apenas presenciar

A todos aqueles a quem seu coração se inclinar

Com suas próprias mãos a vida irá arrancar

Todos os dias de sua existência

Pela morte irá implorar

Com a mais doce agonia

Terá de aprender a continuar

Mas não será tão simples assim

Com sua própria dor acabar

Apenas uma pessoa

Que seja assassina sem nunca matar

Que tenha beijado a morte e vivido para contar

Poderá de ti a vida tirar

Você jamais terá um verdadeiro lar

Jamais terá em quem confiar

Mas como seria simples da história lhe apagar

Se não tiver mais nada em que se apegar

Por isso há também um dom nessa doce magia

Um momento de paz e suave alegria

Pois logo antes de sua vida tomar

Profundamente vai se apaixonar

Só então finalmente

É que irão de ti a vida arrancar

E eu vou estar a observar

E rirei a mais doce melodia

Enquanto grita em profunda agonia

Mas ainda assim não irá descansar

Pois todos aqueles que já veio a matar

Vão pela eternidade

Te torturar

Ditas essas sentenças, uma brisa suave veio da floresta, Dieggo finalmente pôde se mover, e caiu de joelhos novamente diante de Irina o olhar suplicante.

- Você não pode fazer isso…

- Eu já fiz!

Irina começou a se desfazer, esfarelando lentamente diante do olhar de seu amado, até que restaram somente seus olhos vermelhos o encarando com frieza extrema. Mais uma brisa, e tudo desapareceu.

A lua sumiu do céu, e um tremor intenso percorreu todo o vale, logo, como trovões, ouviu-se a voz de Irina ressoando por todos os lugares.

- Por terem se unido contra mim

Jamais nenhum de vocês

Nem seus filhos

Ou os filhos dos seus filhos

Poderão sair desse vale

Aquele que tentar

Certamente morrerá

Da forma mais dolorosa possível

E para que aprendam a respeitar sua Deusa

Nem a lua

Nem o sol

Aparecerão novamente

Até que seja chegado

O dia da minha vingança

Quando tornarei tudo

Como eu desejar que seja

Essa foi a última vez que alguém ouviu ou viu Irina, até os dias de hoje.

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